Cerca de três quartos dos casos de câncer de pulmão no Brasil são identificados quando a doença já está localmente avançada ou metastática. O diagnóstico pode demorar porque os sinais aparecem tarde ou se confundem com problemas respiratórios e cardiovasculares preexistentes.
A avaliação foi apresentada pelo pneumologista Gustavo Prado, presidente da Aliança de Combate ao Câncer de Pulmão, durante o Brand Talk “Da prevenção ao tratamento: construindo uma linha de cuidado para o câncer de pulmão no Brasil”, do Retratos do Câncer. Também participaram Marlene Oliveira, presidente e fundadora do Instituto Lado a Lado pela Vida, e a jornalista Camila Silveira, que mediou o encontro.
Atenção primária como porta de entrada
Prado defendeu que a rede de saúde atue de maneira articulada desde a identificação dos sinais até a confirmação da doença e o início do tratamento. “Precisamos instrumentalizar o médico da atenção primária para reconhecer sinais e sintomas suspeitos para o câncer de pulmão”, afirmou.
Na avaliação do especialista, prevenção, reconhecimento dos alertas e rastreamento de pessoas com maior risco precisam ser organizados em conjunto. A atenção primária, presente no Sistema Único de Saúde (SUS), pode ajudar a conectar estruturas já existentes e impedir que o paciente se perca entre as etapas. A confirmação do diagnóstico, no entanto, pode depender de exames especializados e biópsias, cujo acesso é desigual pelo país.
Culpa afasta fumantes dos serviços
Marlene afirmou que as novas formas de consumo de nicotina exigem uma comunicação capaz de alcançar os jovens e evitar a normalização desses produtos. Ela também apontou o estigma enfrentado por fumantes e ex-fumantes como um obstáculo ao atendimento, já que culpa e medo de julgamento podem afastar essas pessoas dos serviços de saúde.
“O sistema de saúde não está lá para julgar as escolhas. Existe para cuidar das pessoas”, disse. Prado classificou o tabagismo como uma doença crônica e defendeu a retirada da carga moral associada a ele como forma de aproximar os pacientes do cuidado.
Linha de cuidado precisa funcionar na prática
Para Marlene, o desafio não está apenas em desenhar uma linha de cuidado, mas em fazê-la chegar a quem precisa. Isso envolve ouvir o paciente, usar informações compreensíveis e oferecer apoio para a navegação pelo sistema. Na análise dela, um diagnóstico avançado também revela que oportunidades podem ter sido perdidas ao longo do percurso.
Os participantes defenderam a continuidade das políticas de diagnóstico precoce e a ampliação do acesso ao tratamento. Marlene propôs uma decisão sobre a adoção de rastreamento adequado à população brasileira. Prado pediu que essas ações sejam mantidas como políticas de Estado, e não limitadas a um governo.








