As acusações feitas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro sobre doações eleitorais em São Paulo levantaram dúvidas sobre pagamentos do Banco Master a empresas ligadas à família do governador Ratinho Junior no Paraná. Até o momento, não há prova pública de propina no estado.
Em proposta de delação recusada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República, Vorcaro afirmou que doações eleitorais de R$ 5 milhões às campanhas de Tarcísio de Freitas e Jair Bolsonaro, em 2022, fizeram parte de uma negociação de propina. Segundo o relato, R$ 2 milhões foram destinados à campanha de Tarcísio ao governo de São Paulo e R$ 3 milhões à campanha de Bolsonaro à Presidência.
Vorcaro relacionou os valores à permanência do Credcesta no governo paulista e classificou as doações como contrapartidas financeiras de um suposto ajuste indevido com Gilberto Kassab. Kassab negou as acusações e chamou o relato de “absolutamente fantasioso”. Tarcísio também negou relação com Vorcaro ou conhecimento de condutas externas à campanha.
Empresas ligadas à família Massa
Documentos da Receita Federal encaminhados à Comissão Parlamentar de Inquérito do Crime Organizado mostram que duas empresas ligadas ao apresentador Carlos Roberto Massa, o Ratinho, receberam R$ 24 milhões do Banco Master entre 2022 e 2025. A Massa Intermediação de Marumbi ficou com R$ 21 milhões, enquanto a Gralha Azul Empreendimentos e Participações recebeu R$ 3 milhões em 2022.
A Massa Intermediação de Marumbi tinha como endereço informado um local onde não foi encontrada atividade empresarial. Essa circunstância não permite afirmar que a empresa tenha sido criada apenas para receber recursos, mas sustenta a necessidade de esclarecer sua estrutura, seus serviços e a finalidade dos pagamentos.
O apresentador Ratinho divulgava o Credcesta. A família afirma que a maior parte dos valores recebidos decorreu de contratos publicitários relacionados ao cartão.
Outro pagamento foi feito à Massa & Massa. O Banco Master repassou R$ 1,68 milhão à empresa, dividido em quatro parcelas de R$ 420 mil. Ratinho, sua esposa, Ratinho Junior e dois irmãos do governador aparecem como sócios. O Grupo Massa confirmou os pagamentos e afirmou que o contrato previa o uso da imagem do apresentador na divulgação do Credcesta.
Não há confirmação de que os R$ 1,68 milhão estejam incluídos nos R$ 24 milhões pagos às outras empresas. Por isso, os valores não devem ser somados antes da análise dos registros e contratos.
Cronologia do Credcesta
A PKL One Participações, responsável pela operação do Credcesta, abriu uma filial no Paraná em 19 de agosto de 2021. Cinco dias depois, segundo documentos apresentados por Homero Marchese, a Secretaria de Estado da Administração e da Previdência habilitou a empresa. O credenciamento teria sido formalizado pela Resolução SEAP nº 12.047, assinada por Marcel Micheletto.
Em 28 de outubro de 2021, Ratinho Junior editou o Decreto nº 9.220, que regulamentou as consignações dos servidores estaduais e reservou uma margem de 10% para cartões de benefício, modalidade usada pelo Credcesta. O decreto não citou a PKL One, o Credcesta ou o Banco Master e não concedeu exclusividade a uma empresa.
A sequência dos fatos, por si só, não comprova favorecimento ou propina. Também não há informação pública de que a Polícia Federal investigue Ratinho Junior nesse caso.
Negativas e pedidos de esclarecimento
O Grupo Massa afirmou que a contratação teve caráter “exclusivamente comercial e publicitário”. Também declarou que o Banco Master operava regularmente quando o acordo foi assinado. Posteriormente, o contrato foi encerrado por distrato, atribuído a atrasos e a desencontros entre serviços e pagamentos.
O Governo do Paraná informou que não comentaria o caso. A assessoria de Tarcísio declarou que a campanha recebeu recursos de mais de 600 doadores, cumpriu a legislação eleitoral e teve as contas aprovadas pela Justiça Eleitoral. O governo paulista afirmou ainda que a PKL One obteve credenciamento em maio de 2022, durante a gestão anterior, e que a habilitação não representava contrato com o Estado nem repasse de dinheiro público.
Kassab disse que nunca tratou de doações com Augusto Lima ou Daniel Vorcaro, nem discutiu o Credcesta ou recebeu dinheiro em espécie. Vorcaro prestou depoimento em 27 de agosto, na penitenciária da Papudinha, após ter a proposta de delação recusada pela terceira vez por falta de fatos novos.
A finalidade dos pagamentos às empresas da família Massa, os serviços efetivamente prestados, os responsáveis pelas negociações e eventual relação com a entrada ou permanência do Credcesta no Paraná ainda precisam ser esclarecidos. As acusações de Vorcaro dependem de comprovação.








