A coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência, Daniella Marques, apresentou o governo do presidente argentino Javier Milei como referência para o Brasil durante um evento do Grupo Esfera na segunda-feira (14). Economistas, porém, avaliam que o modelo de ajuste fiscal argentino não poderia ser reproduzido no país.
A necessidade de rever as contas públicas brasileiras é tratada como consenso entre os especialistas ouvidos. A divergência está no método associado a Milei, chamado de motosserra, baseado em cortes amplos e rápidos. Para os economistas, a estratégia não corresponde ao cenário brasileiro.
Daniella afirmou que “Milei é um ótimo exemplo em termos de voltar a ter capacidade de investimento e redução de burocracia e impostos”. Segundo ela, Flávio orientou a equipe a trabalhar na revogação de tributos criados ou elevados durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Mais de mil normas teriam sido mapeadas.
Diferenças entre os países
Os especialistas citam o tamanho das economias, as diferenças na legislação e os contextos econômicos. O Orçamento brasileiro é mais constitucionalizado, enquanto o Brasil, na avaliação deles, não atravessa uma crise aguda como a enfrentada pela Argentina antes da chegada de Milei ao poder.
César Bergo, professor da Universidade de Brasília, disse que os dois cenários não são comparáveis. Marcus Pestana, diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente do Senado, afirmou que o Brasil não está no fundo do poço e que cortes radicais enfrentariam resistência no Congresso e na Justiça.
Alberto Fernández, ex-presidente da Argentina e amigo pessoal de Lula, também criticou a possibilidade de o modelo argentino ser usado como referência. Ele afirmou que a experiência de Milei “não deve ser um modelo para nenhum lugar do mundo”. Ao comparar os países, mencionou crescimento, investimentos, geração de empregos e abertura de empresas no Brasil e disse que nada disso ocorre na Argentina.
Cristina Helena Pinto de Mello, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Economia da PUC-SP, destacou as dimensões continentais do Brasil, as diferenças entre regiões e a dependência de investimentos estatais para reduzir desigualdades. Para ela, cortes generalizados poderiam afetar populações dependentes de serviços públicos, transferências de renda, saúde, educação, assistência social e políticas de desenvolvimento regional.
Discurso econômico da campanha
Apesar da referência a Milei, Daniella já declarou que a campanha pretende preservar políticas de apelo popular que pressionam as contas públicas, como a valorização real do salário mínimo. A coordenadora disse que talvez não seja necessário alterar essa regra no início de um eventual governo Flávio e comparou o impacto dessa medida com os juros cobrados em empréstimos consignados.
Pestana também questionou a correspondência entre o discurso da coordenação econômica e as posições dos políticos responsáveis pelas decisões. Para ele, o país acumula déficits consecutivos e não teria condições de abrir mão de arrecadação.
A campanha de Flávio Bolsonaro informou que não iria se pronunciar.








