SÃO PAULO E BRASÍLIA — Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro indicam que o ex-senador Francisco Feitosa de Albuquerque Lima, conhecido como Chiquinho Feitosa, recebeu pagamentos por serviços de assessoria em 2024. O contrato teria sido firmado com a Super Empreendimentos, empresa ligada ao banqueiro, com remuneração mensal de R$ 500.000,00 e honorário adicional de R$ 800.000,00 na primeira parcela.
Naquele período, Feitosa era cunhado de Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). As conversas mostram que o ex-senador tratou com Vorcaro de dois assuntos relacionados a processos em análise na Corte e também participou das tratativas para um encontro entre o banqueiro e o ministro.
Contrato e pagamentos
Os diálogos ocorreram entre 15 de abril de 2024 e 13 de novembro de 2024. Em 11 de setembro de 2024, Feitosa informou a Vorcaro que uma pessoa havia alinhado o contrato com Leonardo Palhares e que o documento seria assinado para a emissão de uma nota. Também pediu orientação sobre valores pendentes e sugeriu reunir o remanescente ao pagamento mensal.
No dia seguinte, Palhares confirmou com Vorcaro os termos do acordo: R$ 500.000,00 líquidos por mês e um pagamento extra de R$ 800.000,00 líquidos na primeira parcela, prevista para 15 de setembro de 2024. Vorcaro aprovou a contratação pela Super Empreendimentos.
Em 2 de outubro de 2024, Fabiano Zettel enviou uma relação de pagamentos a prestadores. Um dos itens registrava “500k - F&A Super valor mensal (Chiquinho)”. Feitosa é dono da F&A Consultoria em Gestão Empresarial e Logística, sediada em Fortaleza (CE), cuja atividade declarada é consultoria em gestão empresarial.
Em outra mensagem, enviada em 27 de janeiro de 2025, Zettel associou o nome de Chiquinho a um pagamento de R$ 2 milhões, junto aos nomes de Eugênio Pacelli e Belline Santana. A Polícia Federal aponta a Super Empreendimentos como instrumento de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio.
Feitosa negou ter contrato com o Banco Master, mas admitiu ter prestado consultoria à Super Empreendimentos “durante um curto período”. Segundo ele, a empresa era considerada idônea e atuava em diversos segmentos naquele momento.
Processos mencionados nas conversas
Um dos temas tratados envolvia precatórios da Usina Agroindustrial Tabu, da Paraíba, adquiridos por fundos do Banco Master. Gilmar Mendes votou contra os interesses do Master e da empresa, assim como outros ministros do STF.
O segundo caso era a Ação Declaratória de Constitucionalidade (ADC) 81, sobre a exigência de chamamento público do governo federal para a abertura de cursos de Medicina. Gilmar foi o relator e votou pela manutenção da lei em vigor. O fundo Calêndula, ligado ao Banco Master, financiava e era uma espécie de sócio da Associação Educacional Luterana do Brasil (Aelbra), mantenedora da Universidade Luterana do Brasil.
Em mensagens de abril de 2024, Feitosa afirmou que havia conversado com Gilmar e relatou a Vorcaro o andamento de contatos com Bruno Bianco, que tratava de questões relacionadas aos precatórios. Em novembro daquele ano, também encaminhou ao banqueiro uma decisão de Luís Roberto Barroso sobre os precatórios da Usina Tabu e pediu que Vorcaro ligasse para ele.
Encontro no STF
Gilmar confirmou ter recebido Vorcaro e advogados do Banco Master em seu gabinete, em 11 de abril de 2024, às 18h. Segundo o ministro, a reunião tratou de um processo sobre créditos relacionados a uma indenização da União à Destilaria Alcídia S/A.
Horas antes, às 13h46, Feitosa havia enviado a Vorcaro o contato de Carla Maria Moreira Sampaio, secretária de Gilmar, além de uma previsão para a reunião. O ministro, porém, afirmou que o ex-cunhado não intermediou o encontro e que não tinha conhecimento da relação entre os dois.
O processo citado por Gilmar foi o ARE 1327995, de relatoria de Edson Fachin. No julgamento da Segunda Turma, em 3 de junho de 2025, Gilmar votou contra os interesses do Banco Master e ficou vencido. O ministro declarou que a audiência ocorreu na sede do Tribunal, em ambiente institucional, e que não votou favoravelmente aos interesses do banco nos processos mencionados.
A defesa de Bruno Bianco afirmou que ele atuava de forma independente, por meio de seu próprio escritório, e que não integrou os quadros do Banco Master. Segundo o posicionamento, sua participação se limitou a funções próprias da advocacia, como despachos com magistrados e apresentação de memoriais.
Guiomar Feitosa, irmã de Chiquinho e então mulher de Gilmar, afirmou que Vorcaro a procurou por intermédio do irmão, mas que decidiu não atuar para o banqueiro porque ele não apresentou um processo específico que exigisse seu trabalho. Chiquinho e Guiomar são irmãos; ela e Gilmar se divorciaram em novembro de 2025.








