A ascensão econômica da China e a perda relativa de espaço dos Estados Unidos estariam levando Washington a concentrar sua estratégia de influência no Hemisfério Ocidental. A avaliação é do economista Richard Wolff, em entrevista ao professor Glenn Diesen publicada no YouTube.
Wolff afirma que a ordem internacional construída depois da Segunda Guerra Mundial está se desfazendo e dificilmente será restaurada nos mesmos termos. Para ele, a mudança não depende apenas de Donald Trump: uma eventual vitória dos democratas poderia alterar métodos e programas, mas não necessariamente o objetivo de preservar a posição internacional dos Estados Unidos.
O economista considera que a política norte-americana passou a reconhecer, ainda que nem sempre de forma pública, o declínio relativo do país. Ele avaliou que o esforço para recuperar a antiga posição tem baixa probabilidade de sucesso e é marcado por medo e desorientação.
Como os Estados Unidos construíram sua influência
Na análise de Wolff, os Estados Unidos terminaram a Segunda Guerra Mundial em situação econômica e militar privilegiada. As antigas potências coloniais europeias — entre elas Reino Unido, França, Holanda, Bélgica, Itália, Espanha e Portugal — saíram enfraquecidas dos conflitos.
Washington apoiou movimentos de independência política, mas reorganizou o comércio e as finanças internacionais para aproximar as antigas áreas coloniais de sua própria economia. O dólar passou a ocupar o centro dos fluxos comerciais, financeiros e de capital, enquanto os Estados Unidos se tornaram o principal comerciante, exportador, importador e fornecedor de empréstimos, segundo o economista.
A Europa, nessa estrutura, teria permanecido vinculada a uma ordem liderada por Washington. Wolff afirma que os países europeus reconstruíram suas economias e avançaram na integração continental, mas não conseguiram romper a dependência econômica, militar e estratégica em relação aos Estados Unidos.
China amplia sua capacidade produtiva
Wolff atribui parte da transformação do equilíbrio mundial à combinação chinesa entre empresas privadas, planejamento estatal e controle político. Na avaliação dele, Pequim não adotou um compromisso rígido com o predomínio do Estado ou do setor privado, mas utilizou os dois conforme as necessidades de seu desenvolvimento.
A estratégia chinesa, segundo o economista, prioriza o avanço econômico, tecnológico e industrial. O país procuraria evitar confrontos diretos sempre que possível e fortalecer suas relações por meio de comércio, financiamento e cooperação militar.
Wolff também destacou a evolução chinesa em infraestrutura, tecnologia e propriedade imobiliária. Para ele, a divulgação desses resultados poderá influenciar a percepção internacional sobre o país e abalar a confiança dos Estados Unidos em sua própria posição.
Pressão regional e disputa por influência
É nesse contexto que o economista identifica uma nova etapa da política externa norte-americana. Em vez de tentar sustentar uma hegemonia global nas mesmas condições do passado, Washington estaria concentrando esforços em uma área regional, com pressões econômicas, políticas e militares sobre Canadá, Groenlândia, Panamá, Venezuela e Cuba.
“Eles estão começando a recuar para uma espécie de império colonial fortificado no Hemisfério Ocidental”, afirmou Wolff.
O Canadá aparece como um dos principais exemplos. O economista diz que os Estados Unidos buscariam ampliar o controle sobre a economia canadense e reduzir sua autonomia diante dos interesses de Washington. Na Groenlândia, ele prevê a combinação de ameaças militares, investimentos e incentivos econômicos para ampliar a influência norte-americana.
Para Wolff, a estratégia também é apresentada por Trump como uma reação a supostos abusos cometidos contra os Estados Unidos. O presidente, segundo essa interpretação, transformaria a antiga posição hegemônica do país em uma narrativa de vítima, na qual Washington teria sido explorado por seus parceiros.
A disputa entre republicanos e democratas, portanto, envolveria principalmente os meios usados para preservar a liderança norte-americana. Wolff sustenta que há mais continuidade do que ruptura entre os partidos na condução da política internacional.
A conclusão do economista é que os Estados Unidos ainda mantêm capacidade militar, econômica e financeira, mas enfrentam dificuldades para exercer esse poder como nas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial. A tentativa de conservar parte da influência passaria, assim, por uma esfera de atuação mais concentrada no Hemisfério Ocidental, enquanto a China aposta no desenvolvimento econômico e tecnológico.









