SAN FRANCISCO — A apresentação do iPhone na Macworld Conference & Expo 2007 se tornou o marco mais associado a Steve Jobs. O aparelho ultrapassou a condição de produto para influenciar a forma como as pessoas se relacionam com a tecnologia e consolidou uma trajetória que também passou por computadores pessoais, música digital, animação e serviços na internet.
Jobs morreu em 5 de outubro de 2011, depois de deixar o cargo de CEO da Apple em 24 de agosto daquele ano. Quinze anos depois, seu legado ainda é interpretado de maneiras diferentes: há quem veja nele uma ideia que ultrapassou a própria existência e quem considere sua imagem de inovador resultado de uma construção publicitária apoiada em um mito.
A formação de uma visão
A trajetória de Jobs esteve ligada à contracultura que marcou a juventude americana na virada da década de 1960. Música, budismo e o uso de alucinógenos fizeram parte do ambiente cultural que influenciou sua geração. O historiador Theodore Roszak relacionou esse movimento à formação de inventores e empreendedores que ajudaram a estabelecer a indústria de computadores da Califórnia.
Essa combinação de rebeldia, construção e realização também apareceu no modo como Jobs falava sobre seus produtos e interesses. A paixão pelo que fazia se tornou uma característica de seu perfil executivo e ajudou a romper com o modelo tradicional de liderança corporativa.
A Apple lançou o Apple I em 1976 e, em 1977, apresentou o Apple II. Ao lado do Tandy Radio Shack TRS-80 e do Commodore PET, o segundo computador ajudou a consolidar a entrada dos computadores pessoais no mercado. O produto combinava uma máquina voltada a entusiastas com uma preocupação maior com design, acabamento e consumidores que não eram especialistas.
Jobs também defendeu as interfaces gráficas como o futuro da computação pessoal, em oposição às linhas de comando. A convicção se fortaleceu depois de uma visita ao Xerox PARC. O projeto do Apple Lisa foi concluído em 1983, mas não teve sucesso comercial. Em seguida, Jobs liderou o desenvolvimento do Macintosh 128K, concebido como um computador intuitivo e acessível a um público amplo.
O Macintosh também consolidou uma nova abordagem publicitária para a Apple. O comercial “1984”, dirigido por Ridley Scott e exibido no intervalo do Super Bowl XVIII, tornou-se parte da identidade da máquina. Apesar de sua importância histórica, o computador enfrentou dificuldades comerciais, e John Sculley retirou de Jobs suas atribuições operacionais em 1985. Ele deixou a empresa naquele ano.
Pixar e NeXT
Em 1986, Jobs comprou da Lucasfilm o departamento de computação gráfica da empresa por US$5 milhões, além de US$5 milhões destinados a investimentos. O negócio totalizou US$10 milhões e deu origem à Pixar. Edwin Catmull assumiu a presidência, enquanto John Lasseter se tornou diretor de criação.
A Pixar lançou “Toy Story” nove anos depois. Em 2006, a empresa foi vendida à Disney por US$7,4 bilhões. Jobs, que detinha 50,1% do empreendimento no momento da aquisição, recebeu uma participação de 7% na Disney e se tornou o maior acionista individual da companhia naquele momento.
Enquanto isso, ele criou a NeXT, inicialmente voltada a estações de trabalho de alto desempenho para o ensino superior. O preço dos equipamentos levou a empresa a direcionar sua atuação para grandes companhias. O NeXT Cube chegou ao mercado em 1988 por US$6.500.
O sistema operacional NeXTSTEP, baseado em Unix e com interface gráfica adaptada do Display PostScript, teve influência em diferentes áreas da computação. Foi nele que Tim Berners-Lee desenhou o projeto World Wide Web, enquanto John Carmack e John Romero desenvolveram Doom e Quake.
O retorno à Apple
Em 1996, a Apple comprou a NeXT durante a gestão de Gil Amelio. A aquisição permitiu reaproveitar a base do NeXTSTEP na criação do sistema que mais tarde seria conhecido como Mac OS X. Jobs retornou primeiro como consultor, depois como CEO interino e, por fim, como CEO definitivo, cargo que ocupou até 2011.
A volta recolocou no centro da empresa a ideia de fabricar grandes produtos. A aproximação com o diretor de design Jony Ive resultou em uma sequência de lançamentos que redefiniu a identidade da Apple.
Em maio de 1998, o iMac G3 rompeu com o padrão bege dos computadores e retomou o conceito all-in-one do Macintosh, com acabamento translúcido. A máquina abandonou portas seriais e paralelas antigas, adotou duas portas USB e trazia leitor de CD. O processador PowerPC G3 também era mais eficiente que o Intel Pentium II usado em computadores Windows da época.
A campanha “Think Different”, criada por Lee Clow, associou a Apple a figuras históricas identificadas com a inovação. Jobs também investiu em uma experiência própria de venda, o que levou à criação das Apple Stores, com controle sobre vendedores, ambiente e apresentação dos produtos.
Música, iPhone e últimos anos
A popularização do Napster, criado em 1999, mostrou a transformação no consumo de música. Em 2001, o serviço reunia cerca de 8 milhões de usuários conectados diariamente. Para Jobs, a mudança representava uma oportunidade de reorganizar a distribuição musical, e não apenas uma ameaça à indústria.
A Apple comprou o SoundJam, um gerenciador de arquivos MP3 desenvolvido para o Mac, e o transformou no iTunes. Depois, lançou o iPod, cuja integração entre hardware e software permitia levar 1.000 canções no bolso. A iTunes Store ofereceu músicas por US$0,99 e ajudou a criar uma alternativa à pirataria.
A mesma integração levou ao iPhone, apresentado em 2007 como a reunião de um iPod, um telefone celular e um navegador de internet. Em 2008 e 2010, Jobs apresentou as primeiras gerações do MacBook Air e do iPad. Também apostou no iCloud e no FaceTime, voltado a videochamadas em dispositivos móveis.
O tumor pancreático diagnosticado em 2003, que mais tarde se tornaria um câncer, provocou afastamentos e limitações na fase final de sua carreira. Em 2011, Tim Cook assumiu a posição de CEO. A morte de Jobs ocorreu pouco mais de um mês depois de sua saída da direção executiva.
A própria visão de Jobs sobre sua trajetória reconhecia que nenhuma criação nasce de uma única mente. Seus produtos dependeram de equipes, tecnologias e ideias construídas anteriormente. Ainda assim, a sequência de decisões tomadas por ele alterou a Apple e alcançou setores como computadores, música, telefonia, animação e serviços digitais.









