Robson Jesus percorreu os 196 países reconhecidos pela Organização das Nações Unidas em 772 dias, numa viagem iniciada pela Tailândia, em 28 de fevereiro de 2022. O brasileiro reuniu 5.552 evidências, entre passagens, carimbos de passaporte, registros de GPS e assinaturas de testemunhas, para comprovar o percurso.
Antes da jornada, ele cresceu na Favela da Padroeira, em Osasco, na Grande São Paulo. Filho de uma empregada doméstica, começou a trabalhar aos 10 anos, empacotando frango em um supermercado. Foi nesse ambiente que passou a observar desenhos e bandeiras nas embalagens e começou a imaginar viagens pelo mundo.
Do hospital ao projeto de viagem
Aos 20 anos, Jesus entrou no Hospital das Clínicas como recepcionista. Depois, qualificou-se, tornou-se assistente e, seis anos mais tarde, chegou ao cargo de gestor no complexo hospitalar. Formado em Administração e especializado em gerenciamento de projetos, aplicou ao próprio desafio métodos de planejamento usados em empresas.
A primeira viagem internacional ocorreu aos 28 anos, para Buenos Aires. Depois, ele tirou o passaporte e o visto americano para aprender inglês. Uma conversa com Jéssica, amiga conhecida nos Estados Unidos, deu origem à ideia de viajar por todos os países. Jesus passou oito meses planejando o roteiro.
Para financiar a partida, vendeu televisão, sofá, geladeira e moto, além de pedir demissão após dez anos no Hospital das Clínicas. Com isso, juntou quase R$ 100 mil. Como estimava que a viagem custaria meio milhão de reais, listou 16 possíveis fontes de renda, incluindo trabalhos como fotógrafo e tradutor.
Roteiro acelerado e adaptação
A permanência média em cada destino ficou entre 5 a 7 dias. Países maiores ou que despertavam maior interesse recebiam até duas semanas. O viajante também criou um ritual de cinco etapas: visitar um mercado local, provar comidas típicas, dormir na casa de um morador, vestir uma roupa tradicional e usar o transporte público.
A distribuição da jornada incluiu 35 países nas Américas, 49 na Europa, 54 na África, 44 na Ásia e 14 na Oceania. O percurso ocorreu durante os efeitos da pandemia e no início da guerra entre Rússia e Ucrânia, período em que fronteiras mudaram sem aviso e os custos de transporte aumentaram.
“Comecei a viajar em um momento incerto”, afirmou Jesus. Segundo ele, foi necessário alterar o planejamento diversas vezes. A comunidade que acompanhava o trajeto pelas redes sociais também ajudou a resolver imprevistos.
O perfil cresceu de cerca de 400 seguidores no início da viagem para 616 mil. Jesus calcula ter faturado quase R$ 1 milhão com o Instagram durante a jornada. Ao mesmo tempo, relatou desgaste provocado por noites em camas diferentes, pela produção contínua de conteúdo e pela falta de um período de descanso prolongado.
A viagem terminou com o retorno ao Brasil em 10 de abril de 2024. O reconhecimento pelo Guinness Book veio após a apresentação das provas do trajeto. Mais tarde, porém, o brasileiro deixou de ser o detentor da marca: Michael Zervos passou a ocupar o posto com uma viagem realizada em 498 dias. Entre as mulheres, o recorde pertence à americana Taylor Demonbreun, que completou o percurso em 554 dias.
Trabalho após o recorde
Depois de voltar ao país, Jesus lançou o livro Não Desperdice Seus Sonhos, passou a dar palestras e começou a lecionar ética na Community Creators Academy, voltada à formação de criadores de conteúdo.
A representatividade racial continua entre os temas centrais de seu trabalho. O nome usado nas redes sociais, “O nego vai longe”, resume parte dessa trajetória. “Racismo é uma coisa que temos de combater todos os dias, em todos os lugares”, disse.
Jesus já repetiu 20 dos 196 países visitados. Também fez, ao lado de Anderson Dias, uma viagem de trem entre Portugal e Singapura, com 22 mil quilômetros percorridos em 44 dias, e cruzou o Caminho de Santiago, na Europa. Para evitar o ritmo que provocou seu esgotamento, estabeleceu o limite de cinco viagens internacionais por ano.
O próximo projeto é visitar 27 comunidades em 27 capitais brasileiras para identificar talentos e ampliar a visibilidade dessas pessoas. Ao lembrar a própria infância, o viajante resume a mensagem que pretende transmitir: “Parabéns, você conseguiu. Continue sonhando”.








