Olga Rudenko, chefe do The Kyiv Independent, afirma que jornalistas ucranianos enfrentam pressão para evitar reportagens que possam prejudicar a imagem do governo ou do país durante a guerra contra a Rússia. Para ela, o patriotismo não deve impedir a publicação de informações negativas ou de denúncias.
“Se você é um bom cidadão, se você é um patriota do seu país, então você é incentivado a expor o que está errado”, disse Olga. Ela também afirmou que a melhor defesa de um jornal é tornar públicas as ameaças que recebe.
O The Kyiv Independent foi criado três meses antes da invasão russa em grande escala. O jornal surgiu depois que Olga e outros jornalistas deixaram uma publicação em inglês cuja orientação havia mudado: a equipe passou a ser pressionada a não colocar a corrupção na primeira página e a promover a Ucrânia. Eles foram demitidos por não aceitarem produzir apenas matérias favoráveis ao governo.
Cobertura sob bombardeios
Com cerca de 30 jornalistas, o jornal mantém equipes que vão diariamente a locais atingidos por bombardeios. Segundo Olga, a redação precisa conciliar a reação humana aos ataques com as decisões editoriais sobre como informar o público global.
Ela diz que, em Kiev, os ataques russos se intensificaram e começaram a afetar diretamente os profissionais. Nas últimas semanas, tornou-se mais difícil permanecer na cidade para fazer reportagens. O próximo desafio imediato, segundo a editora, é o inverno, quando as temperaturas começam a cair por volta de outubro.
Olga afirma que a Rússia descobriu como interromper o aquecimento e a eletricidade nas cidades ucranianas. O temor é que usinas de aquecimento ao redor de Kiev sejam bombardeadas e destruídas, deixando potencialmente inabitável por vários meses a cidade onde está a maior parte da equipe.
A jornalista também destacou o trabalho de uma equipe dedicada a documentários sobre crimes de guerra russos. Os profissionais recebem treinamento para entrevistar sobreviventes sem causar um novo trauma e realizam workshops para ensinar esse método a outros jornalistas.
Corrupção e independência
O jornal foi criado com a intenção de abordar temas internos da Ucrânia, incluindo casos de corrupção no governo de Volodymyr Zelensky, sem intervenção editorial. Para Olga, a guerra não elimina a responsabilidade de produzir uma visão abrangente do país.
Ela reconheceu que o jornal já sofreu pressão de pessoas ligadas diretamente a fontes. Em geral, os casos foram resolvidos longe dos holofotes porque a equipe temia que um escândalo prejudicasse a Ucrânia. Hoje, Olga avalia que, em algumas situações, teria sido melhor divulgar publicamente as ameaças.
A editora também contesta a ideia de que Ucrânia e Rússia sejam nações irmãs ou quase iguais. Segundo ela, essa visão faz parte de uma narrativa da propaganda russa. O fato de muitas pessoas na Ucrânia falarem russo, afirmou, não significa que sejam pró-Rússia ou que aceitem integrar o país vizinho.
Para Olga, a cobertura deve mostrar que o conflito envolve pessoas, e não apenas territórios. Ela afirma que defender a entrega de áreas à Rússia significa aceitar que centenas de milhares de pessoas percam suas casas ou sejam submetidas à tortura caso permaneçam nelas.
Aos 37 anos, Olga foi capa da revista Times como uma das vozes de liderança da nova geração e publica artigos em jornais internacionais, como o The New York Times. Em sua mensagem ao público brasileiro, pediu que as percepções sobre a guerra sejam questionadas e verificadas com cuidado.
Para ela, o jornalismo independente continua necessário mesmo quando há pressão para suspendê-lo. Olga também rejeitou a ideia de que a profissão será substituída por redes sociais, influenciadores ou inteligência artificial e afirmou que o jornalismo demonstra seu valor especialmente durante crises.








