BELGRADO — Ratko Mladic, ex-comandante sérvio-bósnio condenado por crimes de guerra, foi enterrado nesta segunda-feira, 7, em Belgrado, com honras militares e a presença de milhares de pessoas. A cerimônia ocorreu mesmo após alertas da União Europeia contra homenagens públicas ao homem considerado culpado pelo primeiro caso de genocídio no continente desde a Segunda Guerra Mundial.
O funeral foi realizado na Igreja Ortodoxa Sérvia de São Lucas, onde o Patriarca Porfirije conduziu a cerimônia. O quepe militar e o sabre de Mladic foram colocados sobre o caixão, cercado por homens uniformizados. Depois, soldados do Exército da Sérvia levaram o caixão, coberto pela bandeira nacional, até o cemitério. Houve aplausos e música de uma orquestra militar.
Entre os presentes estavam Milorad Dodik, líder sérvio-bósnio; Alexander Botsan-Kharchenko, embaixador da Rússia na Sérvia; Danilo Vucic, filho do presidente Aleksandar Vucic; e ministros, incluindo o da Defesa. Veículos de comunicação alinhados ao governo transmitiram o funeral ao vivo.
Mladic foi condenado em 2017 por comandar o massacre de mais de oito mil homens e meninos muçulmanos em Srebrenica, em 1995. A decisão também levou em conta o cerco de Sarajevo, que durou anos, e outros crimes, como a instalação de campos de concentração para civis não sérvios e soldados inimigos.
Reação de familiares e da União Europeia
O grupo Mães de Srebrenica, formado por familiares das vítimas, pediu uma reação da União Europeia. Em uma publicação no X, afirmou: “A glorificação do genocídio não é uma honra, é uma vergonha”. O grupo também declarou que o funeral poderia se transformar na maior reunião fascista da Europa nos últimos 70 anos.
O serviço diplomático da UE condenou a glorificação de criminosos de guerra, a negação do genocídio e o revisionismo. A comissária europeia de Ampliação e Política de Vizinhança, Marta Kos, cancelou uma visita à Sérvia prevista para os próximos dias e disse que a homenagem era incompatível com os valores ligados ao caminho do país para a União Europeia.
Srebrenica havia sido declarada pela Organização das Nações Unidas como um refúgio seguro para bósnios muçulmanos, mas acabou ocupada por forças sérvias. Homens e meninos foram mortos e enterrados em valas comuns.
Após a morte de Mladic, admiradores fizeram vigílias, pintaram murais com sua imagem em Belgrado e acenderam sinalizadores. Na noite de domingo, 6, torcedores exibiram uma imagem enorme do ex-comandante e gritaram seu nome durante uma partida.
O governo sérvio enviou um avião para transportar os restos mortais até Belgrado e promoveu uma cerimônia militar no sábado, 5. O presidente Aleksandar Vucic, que não foi ao funeral, descreveu o ato como uma manifestação emocional e afirmou que os sérvios são “perseguidos e assediados há 30, 40 anos”.
A Sérvia é candidata à adesão à UE e mantém uma postura desafiadora sobre seu papel na guerra da Bósnia. O conflito terminou em 1995, após deixar mais de 100 mil mortos e mais de 1 milhão de desabrigados.








