A China ampliou entre 2025 e 2026 os testes e projetos militares envolvendo robôs humanoides, com foco em reconhecimento, infiltração, patrulhamento e atuação em áreas urbanas. Documentos de compras, pesquisas acadêmicas, patentes e registros oficiais indicam que o Exército de Libertação Popular (ELP) passou a tratar essas plataformas como parte do planejamento para futuros combates.
Ainda não há evidências de que o ELP utilize regularmente um humanoide armado. O trabalho, porém, já inclui aquisição de equipamentos, desenvolvimento de sistemas de percepção e manipulação e treinamento voltado às condições de um campo de batalha.
Do laboratório às compras militares
Em maio de 2025, o ELP abriu uma licitação para adquirir um robô humanoide, incluindo instalação e treinamento técnico. Quatro meses depois, outro aviso relacionado a um endereço eletrônico da Universidade Nacional de Tecnologia de Defesa da China (NUDT) procurou um sistema de percepção inteligente e operação hábil para esse tipo de máquina.
Os registros não permitem identificar os fornecedores ou os modelos envolvidos. Também não foi possível confirmar se os processos terminaram em contratos.
Em junho de 2026, o Exército reservou cerca de US$ 300 mil para um sistema capaz de coletar e classificar dados de câmeras, radares e sensores de movimento. O projeto também prevê informações sobre terrenos que poderiam ser percorridos por humanoides.
O desenho dessas iniciativas mostra atenção às ferramentas que permitem interpretar ambientes, movimentar objetos e processar grandes quantidades de dados, além da construção física dos robôs.
Simulações de combate em áreas urbanas
Em agosto de 2025, pesquisadores da NUDT apresentaram um cenário com seis robôs de combate em uma operação dentro de uma cidade. O exercício reunia humanoides, cães-robôs e veículos não tripulados, distribuídos entre duas equipes de assalto.
As máquinas acompanhariam soldados na entrada de um edifício ocupado por forças adversárias, avançando por andares e salas. Os pesquisadores estimaram que os equipamentos poderiam atingir capacidade operacional em cinco a dez anos. O estudo não definiu regras de engajamento, armamentos nem procedimentos para ocorrências com civis.
Em junho de 2025, uma competição da NUDT simulou uma infiltração atrás das linhas inimigas. Os robôs deveriam entrar em uma área, elaborar mapas e localizar alvos. Outra atividade avaliou controle de identidade, inspeções disciplinares e patrulhamento de instalações militares. A universidade apresentou o evento como uma etapa de aproximação entre os humanoides e o campo de batalha.
Juo-Min Chou, pesquisadora do Instituto de Pesquisa de Defesa e Segurança Nacional de Taiwan, afirmou que melhorias no equilíbrio, na percepção e na autonomia energética podem favorecer o uso desses robôs em construções, túneis e interiores de navios. “Suas duas mãos e dois pés poderiam, em tese, combinar mobilidade, capacidade de escalar e manipulação”, disse.
Chou também apontou que veículos sobre rodas ou esteiras e máquinas de quatro patas ainda podem ser mais adequados para tarefas simples de logística e reconhecimento, por custarem menos e serem mais fáceis de empregar em grande quantidade.
Planos para funções de combate
Um artigo publicado pelo PLA Daily em julho de 2025 discutiu uma transição das funções de apoio para a participação direta no combate. O texto mencionou a possibilidade de um humano verificar um alvo e autorizar um robô a disparar.
Em dezembro, o Comando do Teatro Oriental do ELP divulgou uma montagem feita com inteligência artificial que mostrava humanoides e robôs quadrúpedes em uma simulação de confronto envolvendo Taiwan.
O interesse militar chinês por essas plataformas ganhou força em 2024, quando a NUDT e a Academia de Ciências Militares da China organizaram um fórum de tecnologia de defesa com debates sobre aplicações militares de sistemas humanoides.
A Norinco, empresa estatal de defesa, desenvolveu o Fuxi, um robô de tamanho semelhante ao de uma pessoa. Materiais publicados pela companhia em agosto descrevem funções de vigilância, reconhecimento em diferentes condições climáticas, patrulhamento e execução de atividades perigosas.
A empresa também criou um sistema de teleoperação, pelo qual uma pessoa controla o equipamento a distância. A alternativa reduz a necessidade de decisões totalmente autônomas durante uma missão.
Limites técnicos e disputa internacional
A autonomia continua entre os principais obstáculos para o emprego militar dos humanoides. As máquinas consomem muita energia, dependem de ambientes relativamente previsíveis e têm dificuldade para reagir a terrenos, obstáculos e movimentos inesperados.
Malcolm Davis, analista do Australian Strategic Policy Institute, avaliou que esses sistemas ainda não são práticos para o campo de batalha. “Mas, em cinco a dez anos”, afirmou, “eles podem muito bem ser.”
A experiência da guerra entre Rússia e Ucrânia também influencia o planejamento. Drones semiautônomos com inteligência artificial passaram a cumprir missões de reconhecimento e ataque, enquanto sistemas terrestres transportam suprimentos e retiram feridos de zonas de risco.
A indústria chinesa fornece uma base ampla para esse desenvolvimento. Dados do BofA Global Research indicam que fabricantes do país responderam por cerca de 95% dos embarques mundiais de robôs humanoides em 2025. Essa capacidade aproxima as Forças Armadas de fabricantes, componentes, sistemas de inteligência artificial e plataformas criadas para o mercado civil.
Os Estados Unidos lançaram em 2025 uma competição para desenvolver capacidades de humanoides militarizados capazes de operar ao lado de soldados. As aplicações previstas incluem reconhecimento, segurança, remoção de obstáculos, manejo de materiais perigosos e missões ofensivas e defensivas em áreas urbanas.
Até dez finalistas deveriam testar suas plataformas com especialistas militares americanos em 2026. O programa prevê até US$ 1,25 milhão em contratos posteriores.
Controle humano e regras de guerra
O avanço também envolve questões sobre o uso da força. As normas internacionais exigem a distinção entre combatentes e civis e a proteção de pessoas feridas ou que se rendam. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha alerta que sistemas autônomos podem ter dificuldade para interpretar sinais de rendição, que dependem de contexto, comportamento e intenção.
Os Estados Unidos exigem revisão jurídica e testes realistas para armas autônomas, além da participação humana em decisões sobre o emprego da força. O Ministério da Defesa da China afirmou em março que armas alimentadas por inteligência artificial devem permanecer sob controle humano.
Wang Yonghua, integrante da Academia de Ciências Militares da China, escreveu em novembro que os humanoides ainda enfrentam problemas de movimento, percepção e inteligência.








