A vitória da Alternativa para a Alemanha (AfD) na eleição regional da Saxônia-Anhalt aumentou a pressão sobre os partidos tradicionais europeus e reforçou a perspectiva de novas conquistas da direita radical. O resultado, obtido no domingo, teve impacto político além do estado alemão e passou a ser avaliado como possível sinal para disputas nacionais previstas em diferentes países europeus.
A AfD conquistou mais do que o dobro dos votos do partido de centro-direita do chanceler Friedrich Merz. O avanço ocorreu em meio ao aumento dos preços e ao elevado desemprego. Como o partido ficou um pouco aquém da maioria absoluta, conforme os resultados quase finais, ainda não está definido se governará o estado. Partidos rivais afirmaram que não formarão uma coalizão com a legenda.
A AfD é classificada como grupo extremista “suspeito” pela inteligência alemã. Seus líderes já usaram slogans nazistas e minimizaram o Holocausto. O partido também é acusado de retratar alemães de origem imigrante como cidadãos de segunda classe.
Eleições nacionais sob pressão
O desempenho da AfD ocorre antes de eleições previstas para o próximo ano em vários países. Na França, os eleitores escolherão um novo presidente na próxima primavera, depois da saída de Emmanuel Macron. Marine Le Pen, da Reunião Nacional, lidera as pesquisas do primeiro turno e apareceu à frente em confrontos recentes do segundo turno.
Na Espanha, eleições estão previstas para agosto. Analistas avaliam que o Vox pode participar do próximo governo de coalizão, enquanto o atual governo socialista enfrenta escândalos de corrupção e uma crise migratória. Na Itália, a votação deve ocorrer no final do próximo ano. A primeira-ministra Giorgia Meloni, cujo partido tem raízes neofascistas, poderá tentar prolongar seu período no poder no próximo verão.
A questão migratória também elevou as tensões entre governos europeus. Meloni criticou o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, após um fluxo repentino de migrantes do Marrocos para o território espanhol no final de julho. Ao mesmo tempo, a projeção de Roberto Vannacci, um rival mais à direita, levou a primeira-ministra italiana a endurecer suas posições sobre imigração.
No Reino Unido, o Partido Trabalhista destituiu o primeiro-ministro Keir Starmer em julho, numa tentativa de recuperar espaço diante do Reform UK. O crescimento do partido foi interrompido por escândalos financeiros envolvendo Nigel Farage. Rupert Lowe, integrante descontente da legenda, deixou o partido para fundar um grupo ainda mais à direita.
Reação dos partidos tradicionais
O resultado alemão também aumentou as dúvidas sobre a liderança de Merz. A popularidade do chanceler se deteriorou, e analistas passaram a discutir a possibilidade de sua destituição. Para Mujtaba Rahman, do Eurasia Group, governos europeus não têm conseguido responder às preocupações relacionadas ao custo de vida nem atender às expectativas dos eleitores.
“Uma Alemanha fraca, com uma chanceler que está se descontrolando e sendo forçada a lidar com problemas internos, é ruim”, disse Rahman. Para ele, uma eventual vitória populista na França teria impacto significativo sobre a União Europeia por causa do tamanho do país, de seu arsenal nuclear e de seu papel no projeto europeu.
O avanço da direita radical, porém, não é considerado inevitável. Em abril, Viktor Orbán foi afastado do cargo de primeiro-ministro da Hungria depois de 16 anos. A derrota do Fidesz foi associada à percepção de corrupção, negligência com a economia e conflitos desnecessários com a União Europeia.
O professor Timothy Bale, da Queen Mary University de Londres, afirmou que o impacto do avanço da AfD dependerá de como o partido atuaria caso chegasse ao poder. Na França, analistas consideram que um candidato capaz de reunir apoio da centro-direita e da esquerda ainda poderia derrotar Le Pen no segundo turno. Se o centro continuar fragmentado, Jean-Luc Mélenchon também poderá alcançar essa fase, cenário em que Le Pen seria considerada favorita.








