A Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve 44,5% dos votos na eleição estadual da Saxônia-Anhalt, no leste alemão, mais que o dobro do resultado da CDU, que ficou em 18,5%. A legenda de centro-direita é ligada ao chanceler Friedrich Merz. Classificada pelo serviço de inteligência doméstica como extremista de direita, a AfD alcançou o melhor resultado de um partido desse campo na Alemanha desde 1945.
O desempenho recolocou no centro da política alemã duas perguntas: por que tantos eleitores apoiam a sigla e qual deve ser a resposta dos partidos tradicionais.
Imigração como principal fator
A explicação de que o apoio à AfD seria consequência principalmente da pobreza e do abandono do leste alemão perdeu força. O poder de compra de Magdeburgo e Halle supera o de quase todo o sul e o leste da Europa. As aposentadorias de pessoas que contribuíram por mais de 35 anos equivalem a 95% das pagas no oeste, enquanto produtividade e salários chegam a 84% do nível ocidental.
A região também reúne cerca de 30 dos quase 80 teatros de ópera do país, embora concentre um quinto da população. Mesmo assim, 75% dos alemães orientais afirmam que as diferenças entre as duas partes da Alemanha pesam mais do que os elementos de união, o maior índice desde 2004.
Um estudo da Universidade do Sarre concluiu que renda e escolaridade explicam pouco o voto na AfD. O fator associado à escolha do partido é a preocupação com a imigração, tanto entre ricos quanto entre pobres. Na Saxônia-Anhalt, os estrangeiros representam apenas 8% da população, menos da metade da média nacional e abaixo dos índices de Hesse ou Hamburgo.
Três respostas em debate
Desde a fundação da AfD, em 2013, os partidos tradicionais mantêm o Brandmauer, o bloqueio à cooperação com a legenda. Thorsten Benner, do Global Public Policy Institute, em Berlim, avalia que a barreira impediu a AfD de governar um estado, mas não conteve seu crescimento. A sigla lidera as pesquisas nacionais com quase 30%.
Benner afirma que a falta de perspectiva de poder também contribuiu para a radicalização do partido. Uma alternativa seria substituir o veto absoluto por condições verificáveis, como a expulsão de Björn Höcke, dirigente influente no leste. Ele foi condenado duas vezes por usar, em eventos de campanha, um slogan das tropas de assalto de Hitler, prática considerada crime na Alemanha.
Outra possibilidade defendida por setores políticos é a proibição. Boris Pistorius, ministro da Defesa, e Cem Özdemir, chefe de governo de Baden-Württemberg, pediram no fim de agosto a abertura de um processo contra as seções da AfD no leste, incluindo a da Saxônia-Anhalt. Em 2025, o serviço de inteligência doméstica classificou a legenda como comprovadamente extremista de direita por defender uma concepção étnica de povo incompatível com a Constituição alemã.
Os críticos dizem que o processo levaria anos e poderia reforçar a imagem da AfD como vítima. Há ainda a proposta de permitir que o partido governe um estado para que sua capacidade administrativa seja testada. Nesse cenário, a legenda teria de administrar escolas, hospitais e orçamentos, deixando de atuar apenas como força de protesto.
A hipótese também é confrontada com a experiência alemã dos anos 1930. Em 1930, juristas do governo da Prússia recomendaram a proibição do partido nazista, mas o chanceler Heinrich Brüning preferiu enfrentá-lo politicamente. Menos de três anos depois, Hitler chegou ao poder. As situações não são idênticas, já que um estado não corresponde ao país inteiro, mas o episódio é usado como alerta.
O resultado na Saxônia-Anhalt mostrou que o isolamento, adotado como estratégia única, já não é considerado suficiente. Proibir, estabelecer condições para o diálogo ou permitir que a AfD governe são alternativas que envolvem riscos diferentes.








