O endividamento dos 20 clubes do Brasileirão chegou a R$ 14,3 bilhões entre 2021 e 2025, alta de 46% no período. A receita acumulada pelas equipes também cresceu: em 2025, somou R$ 14,9 bilhões, avanço de 33% em relação ao ano anterior e de 73% desde 2021, segundo levantamento da EY.
Os números integram o debate sobre a possível proibição de cassinos online e bets pelo governo federal. Quinze dos 20 times da Série A assinaram um manifesto contra a medida. Para Michel Fauze Mattar, diretor de indústria do esporte da EY no Brasil, a retirada das empresas não representaria o fim do futebol, mas poderia afetar a liquidez de clubes que incorporaram esse dinheiro à folha salarial e às contratações.
Dependência desigual entre os clubes
Na última temporada, apenas quatro equipes da Série A tiveram receitas diretas de bets acima de 10% do total em 2025: Corinthians, com 17,3%; Flamengo, com 12,71%; Sport, com 12,64%; e Juventude, com 10,49%.
O Corinthians tem previsão de receber R$ 150 milhões anuais da Esportes da Sorte. O valor correspondeu a 17,3% da receita do clube no último exercício, de R$ 863,68 milhões. Desde dezembro de 2022, a equipe também havia mantido contratos com outras duas casas de apostas, entre elas a Vai de Bet, que entrou na mira do Ministério Público.
O São Paulo recebeu R$ 80 milhões da Superbet em 2025, o equivalente a 7,48% dos R$ 1,07 bilhão faturados pelo clube. O acordo com empresas do setor existe desde 2019. A marca atual passou a ocupar a camisa em dezembro de 2023 e elevou o aporte para R$ 95 milhões em 2026.
O Santos recebeu R$ 51 milhões da 7k em 2025, quantia correspondente a 8% do faturamento de R$ 573,6 milhões. Para 2026, o clube assinou contrato de R$ 35 milhões com a Novibet. Já o Palmeiras fechou com a Sportingbet em janeiro de 2025 por R$ 100 milhões anuais, valor equivalente a 5,6% de suas receitas totais de R$ 1,73 bilhão.
Apostas e alternativas de receita
O economista Cesar Grafietti avalia que as empresas devem permanecer no mercado caso uma eventual medida provisória não determine o encerramento dos patrocínios e das apostas esportivas. Para ele, os investimentos já realizados e o volume do setor reduzem a possibilidade de uma saída voluntária.
Fábio Wolff, sócio-diretor da Wolff Sports e especialista em marketing, afirma que a diversificação das receitas é necessária, mas ocorre no médio e longo prazo e não substitui imediatamente uma fonte relevante de investimento. Michel Fauze Mattar projeta uma acomodação do mercado, com consolidação das operadoras e maior seletividade nos aportes.
Luciano Andrade Pinheiro, advogado especializado em direito desportivo e sócio do Corrêa da Veiga Advogados, prevê redução ou estagnação dos valores das bets mesmo sem veto. Segundo ele, os clubes podem ter criado expectativas acima do potencial real do mercado.
Clubes e entidades
Athletico-PR, Bahia, Coritiba, Internacional e Remo não endossaram a manifestação da mesma forma. O Remo e o Coritiba disseram que não foram procurados. O Athletico-PR informou que ainda trata do assunto, enquanto o Bahia não explicou a ausência.
O Internacional afirmou acompanhar as discussões e reconheceu a necessidade de enfrentar os impactos sociais das apostas, mas também demonstrou preocupação com mudanças no modelo de financiamento do futebol. Na Série A, 13 equipes têm empresas do setor como patrocinadoras máster. Em 2025, eram 19 dos 20 times com acordos com bets, sendo um deles fora da posição máster.
O Brasileirão e a Copa do Brasil têm os naming rights vendidos a uma empresa do setor. A CBF ainda discute o tema internamente e não apresentou posição oficial. A Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol acompanha o debate sem envolvimento, por considerar que a questão política cabe à confederação.








