A animação Papaya constrói sua narrativa sem diálogos e transforma cores, sons, movimentos e formas em elementos centrais da história. Primeiro longa-metragem de Priscilla Kellen, o filme chegou aos cinemas brasileiros na quinta-feira, 24, com 74 minutos de duração.
A protagonista é uma semente de mamão que deseja voar e conhecer o mundo, embora sua natureza esteja ligada à criação de raízes. Ao longo da jornada, a busca por liberdade se modifica: criar raízes passa a ser compreendido não apenas como permanecer parado, mas também como encontrar apoio e sustentação.
Uma personagem em transformação
A ideia do filme surgiu em 2018 e atravessou sete anos de produção. No início, Priscilla se reconhecia mais na figura da mãe-mamoeiro. Com o desenvolvimento da personagem, porém, passou a se identificar com a semente curiosa, insistente e determinada a olhar para o alto.
A diretora também relacionou Papaya à infância. Para ela, a personagem se comporta como uma criança diante do mundo: quer experimentar possibilidades e alcançar o que deseja, mas ainda não tem autonomia para conduzir todos os próprios movimentos. A maternidade ampliou essa leitura, ao aproximar a semente da observação de bebês curiosos, interessados em tudo, mas dependentes de outras pessoas.
Nesse processo, o enraizamento ganhou uma dimensão pessoal. O nascimento do filho fez Priscilla perceber que algumas escolhas deixavam de ser totalmente individuais e reforçou a importância de redes de apoio, trocas de conhecimento e sustentação mútua.
No filme, Papaya ainda precisa chegar a essa descoberta. Encantada pela possibilidade de voar, ela tenta escapar do que parece ser seu destino. A experiência faz com que a personagem perceba que permanecer ligada a um lugar não elimina necessariamente o movimento nem os sonhos.
Comunicação além das palavras
A opção por não usar falas está ligada à maneira como Priscilla compreende a comunicação. A diretora considera que expressões faciais, gestos, respiração e deslocamentos frequentemente transmitem informações antes mesmo da linguagem verbal.
Essa concepção orienta a construção do filme, que combina recursos da animação e do cinema mudo com elementos de videoclipe e infográfico. Em vez de explicar todos os sentimentos da protagonista, a narrativa acompanha suas reações e deixa que o público interprete parte do que acontece.
A estratégia também foi pensada para as crianças. Priscilla preferiu não atribuir um significado único a cada imagem e criou espaços para que pessoas de diferentes idades formulem suas próprias interpretações. As lacunas aparecem tanto na narrativa quanto na composição visual, sem impedir a compreensão da trajetória da personagem.
Visual artesanal
Papaya foi produzido em 2D e apresenta uma estética colorida influenciada por grafismos e artesanatos latino-americanos. Entre as referências estão sacolas de feira, colchas de retalho e colagens de Henri Matisse. Priscilla define a combinação como um “tropicalismo pós-apocalíptico”.
O visual precisava manter riqueza e personalidade, mas também ser executado por diferentes profissionais e estúdios. Por isso, a diretora buscou um desenho que pudesse ser reproduzido de forma econômica, sem perder as características que orientaram a criação do filme. Durante a produção, escolhas foram ajustadas para tornar o trabalho viável e preservar o resultado procurado.
Percurso da diretora e do filme
Priscilla é formada em Design Gráfico pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Ao longo da carreira, trabalhou com animação, ilustração e televisão. Também integrou o estúdio Filme de Papel, onde atuou em Garoto Cósmico e O Menino e o Mundo. No primeiro, foi assistente de animação; no segundo, exerceu as funções de coordenadora artística e assistente de direção. O longa de Alê Abreu também participa de Papaya como coprodutor.
Antes da estreia nas salas brasileiras, Papaya foi selecionado para a mostra Generation KPlus do Festival de Berlim de 2026. A participação fez do filme o primeiro longa-metragem de animação brasileiro na competição. A produção também passou pelo New York International Children’s Film Festival, pelo Anima, em Bruxelas, pelo Festival de Xangai e pelo BAFICI, em Buenos Aires.
Para Priscilla, a recepção fora do Brasil mostrou que as diferenças culturais não impedem a identificação com as questões apresentadas pela animação. A diretora relaciona essa resposta a preocupações com o destino do planeta e da espécie humana, além do desejo por uma vida mais natural, leve e aberta aos sonhos e à poesia.








