A expansão da inteligência artificial pode alterar a forma como os governos arrecadam impostos. O desafio não está apenas na quantidade de empregos que poderá desaparecer, mas também na transferência de renda do trabalho para o capital, segundo a análise apresentada no texto.
Nos países desenvolvidos, os tributos sobre o trabalho ainda respondem por cerca de metade da arrecadação. Salários geram imposto de renda e contribuições sociais. Quando esse dinheiro é gasto, também produz arrecadação sobre o consumo.
Mudança na distribuição da renda
O avanço da IA pode permitir que empresas produzam a mesma quantidade com menos trabalhadores. Nesse cenário, a produtividade e o PIB podem crescer, mas a renda adicional pode ficar concentrada em outras formas de remuneração.
Um exemplo mostra essa mudança: uma empresa produz R$ 100, dos quais R$ 70 são destinados aos trabalhadores e R$ 30 remuneram o capital. Com a IA, a produção aumenta para R$ 120, mas a distribuição muda para R$ 60 ao trabalho e R$ 60 ao capital. O país fica mais rico, enquanto a participação do trabalho recua de 70% para 50%.
Os salários são relativamente simples de identificar e tributar. Além do imposto de renda, eles geram contribuições previdenciárias e, posteriormente, impostos sobre o consumo. Já a remuneração do capital pode aparecer como lucro, dividendos, ganho de capital, valorização ainda não realizada de ações ou propriedade intelectual.
Parte dessa renda também pode ser direcionada a outros países, por meio da empresa estrangeira que fornece o modelo de IA, da companhia responsável pela nuvem ou de proprietários estrangeiros do capital. O desafio passa a ser tributar a renda extraordinária criada pela tecnologia sem desestimular o investimento que aumenta a produtividade.
A arrecadação enfrenta ainda três transformações simultâneas: o envelhecimento da população, o encarecimento das dívidas dos países e a mudança tecnológica. Com menos trabalhadores, um Estado mais caro e uma base menor de tributos sobre o trabalho, os governos podem precisar arrecadar mais justamente quando essa fonte tradicional perde importância relativa.
A reforma tributária brasileira terá de lidar com uma economia que pode ser diferente daquela que orientou sua criação. O risco apontado é que o sistema seja desenhado para uma estrutura econômica que está ficando para trás.








