A dependência de diesel importado dos Estados Unidos colocou Brasil, México e países europeus sob pressão diante da possibilidade de o governo americano restringir as vendas externas do combustível. A medida afetaria setores como transporte rodoviário de longa distância, agricultura e mineração, além de poder provocar falta de abastecimento em mercados dependentes.
Na sexta-feira, 3, nações industriais ricas, incluindo os Estados Unidos, decidiram liberar diesel de seus estoques. O objetivo é ajudar a reduzir preços recordes e diminuir a apreensão causada pela possibilidade de interrupção das exportações americanas.
Brasil busca alternativas
O Brasil se tornou recentemente o principal comprador de diesel dos Estados Unidos. A mudança se acelerou nas últimas semanas, depois que a Rússia estendeu restrições às exportações do combustível após ataques de drones ucranianos contra refinarias.
O país depende do diesel para o setor agrícola e procura reforçar os suprimentos enquanto tenta reduzir o impacto econômico dos preços altos. Entre as opções analisadas pelas autoridades estão o aumento das importações da Índia e a expansão da produção de biodiesel a partir da soja. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também ampliou os subsídios ao diesel.
Magda Chambriard, CEO da Petrobras, afirmou que a empresa já havia reservado cargas para outubro. A existência de uma grande indústria de refino, porém, não elimina a dependência externa. Para Reid I’Anson, economista da Kpler, o Brasil não tem capacidade doméstica suficiente para atender à demanda.
Robin J. Brooks, membro sênior da Brookings Institution, escreveu que “A América Latina seria absolutamente golpeada por uma proibição”. Seis dos 10 principais destinos das exportações de diesel dos Estados Unidos estavam na América Latina em setembro, conforme dados da Vortexa. Brasil e México lideram as compras do combustível americano.
Impacto sobre México e Chile
O México, principal parceiro comercial dos Estados Unidos, tenta reduzir há anos a dependência das importações americanas. A expansão do refino doméstico, contudo, foi prejudicada por atrasos técnicos e custos acima do orçamento.
A produção mexicana de diesel não cobre as necessidades do país, deixando setores importantes expostos a uma eventual restrição americana. O norte do México, onde está concentrada uma grande base industrial, poderia ser especialmente vulnerável caso as tubulações transfronteiriças no Texas fossem impedidas de exportar.
Na América Central, a dependência é mais intensa devido à baixa capacidade de refino. Países menores da região também poderiam ser afetados, incluindo produtores de cobre, prata e lítio. O Chile depende dos Estados Unidos para 88% das importações de diesel.
Europa também seria afetada
A Grã-Bretanha e os Países Baixos são os maiores importadores europeus de diesel dos Estados Unidos, seguidos por França e Espanha. A Grã-Bretanha recebe cerca de um terço do diesel importado dos Estados Unidos e teve sua capacidade de ampliar a produção reduzida pelo fechamento de refinarias domésticas.
Os Países Baixos têm dupla exposição: são consumidores do combustível americano e funcionam como polo regional de armazenamento e refino. Uma interrupção poderia reduzir os estoques no país, afetar o transporte de barcaças pelo Rio Reno e provocar escassez secundária na Europa Ocidental.
Risco de efeito contrário
O economista de energia Philip K. Verleger avaliou que uma proibição poderia produzir consequências além das interrupções imediatas. Ele comparou a hipótese ao embargo temporário às exportações de soja imposto pelo presidente Richard Nixon em 1973, em resposta à inflação doméstica e a uma colheita ruim nos Estados Unidos.
Segundo Verleger, o embargo provocou um choque no Japão e contribuiu para a transformação do Brasil de participante secundário no mercado global de soja em concorrente relevante dos Estados Unidos. Uma restrição ao diesel também poderia levar outros países a buscar fornecedores alternativos ou acelerar a transição para fontes renováveis. “Uma proibição das exportações de diesel minaria a credibilidade dos EUA como um fornecedor confiável de energia”, disse o economista.








