O Canadá impôs tarifas sobre cerca de US$ 20 bilhões em produtos dos Estados Unidos, em resposta à mais recente rodada de medidas anunciada por Donald Trump. A retaliação alcança aço, alumínio, queijo, eletrodomésticos, roupas, cosméticos e equipamentos agrícolas, com alíquotas de 15%, 25% ou 50%.
As tarifas canadenses entraram em vigor à 00h01 desta terça-feira por meio de uma medida executiva chamada “ordem do Conselho”. O governo afirma que a resposta equivale às medidas americanas, dólar por dólar e alíquota por alíquota. O valor representa aproximadamente 6% dos US$ 333,6 bilhões exportados pelos Estados Unidos para o Canadá no ano passado.
A RBC Economics, braço de pesquisa do Royal Bank of Canada, avalia que as medidas provavelmente não vão prejudicar o crescimento geral dos Estados Unidos, mas podem afetar duramente empresas específicas. O Canadá também mantém restrições ou proibições à venda de bebidas alcoólicas americanas em oito de suas dez províncias. As exportações de destilados dos EUA para o país caíram mais de 70% em relação ao ano anterior após a adoção dessas restrições.
Ameaças de novas medidas
O primeiro-ministro Mark Carney afirma que as exigências de Washington podem esvaziar setores importantes da economia canadense e limitar a independência do país. Desde o fracasso das negociações comerciais, em 21 de agosto, Trump e integrantes de seu governo lançaram novas tarifas, ameaças e críticas ao Canadá.
Na segunda-feira, 7, Trump ameaçou proibir a venda de aeronaves da Bombardier nos Estados Unidos caso a empresa não passe a fabricar aviões em território americano. Flavio Volpe, presidente da APMA Canada, afirmou que a fabricante usa motores da GE e da Honeywell, produzidos nos Estados Unidos, e emprega cerca de 3.000 trabalhadores americanos.
Trump também já havia dito que a economia canadense poderia entrar em colapso e ameaçou aplicar consequências “piores do que qualquer coisa que já tenha acontecido a um político canadense”. O representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, afirmou que Washington poderia proibir totalmente alguns produtos canadenses.
O presidente americano ainda passou a chamar o Lago Ontário de “Lago América”. Google e Apple alteraram seus mapas para usuários dos Estados Unidos, enquanto a mudança foi ignorada e ridicularizada no Canadá.
Resistência canadense
As declarações de Trump sobre transformar o Canadá no 51º estado, somadas à guerra comercial, aumentaram o apoio a Carney. Canadenses reduziram viagens aos Estados Unidos e passaram a boicotar produtos americanos.
A relação entre os dois países envolve economias integradas, cooperação em defesa e segurança e laços culturais. Antes da deterioração, cerca de 400 mil pessoas cruzavam a fronteira todos os dias. Carney disse que as negociações poderão ser retomadas quando os Estados Unidos deixarem de fazer memes, alusões maliciosas e tentativas de parecer durões.
No Fórum Econômico Mundial em Davos, em janeiro, Carney havia alertado que grandes potências usam a integração econômica para pressionar países menores. Ele discursará no Parlamento Europeu na próxima semana. Para o cientista político Daniel Béland, uma eventual vitória canadense poderia servir de modelo para outros países resistirem às políticas comerciais de Trump.
Impacto sobre as fábricas
Trump ameaçou aplicar tarifas de 50% sobre veículos, peças automotivas e aço canadenses no próximo ano se o país não “entrar na linha”. Uma medida desse tipo poderia atingir fábricas canadenses e elevar os preços dos veículos na América do Norte, já que peças e carros acabados cruzam a fronteira várias vezes durante a produção.
O Canadá parte de uma posição econômica mais frágil: a economia americana é cerca de 13 vezes maior, e mais de 70% das exportações canadenses seguem para os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, refinarias americanas dependem de 4 milhões de barris de petróleo canadense por dia, e agricultores dos EUA usam fortemente fertilizante de potássio produzido no Canadá.
Os líderes canadenses, porém, descartaram até agora tributar ou restringir exportações essenciais. A economia do país cresceu a uma taxa anualizada de 3,2% no segundo trimestre, acima do ritmo de 1,5% registrado nos Estados Unidos.
A ministra da Indústria, Mélanie Joly, afirmou: “Estou convencida de que seremos capazes de mostrar ao mundo que o Canadá vencerá essa guerra comercial.”








