Resíduos gerados na fabricação de cédulas passaram a ser reaproveitados em uma iniciativa que reduz custos para a Casa da Moeda do Brasil e cria novas fontes de receita para empresas parceiras. O projeto utiliza aparas de papel-moeda na fabricação de rótulos, móveis e outros produtos.
A análise foi feita pela consultoria BIP no relatório Análise Comparativa Financeira e de Emissões de GEE de Rotas de Processamento de Resíduos de Papel-Moeda, com base no reaproveitamento das aparas produzidas na Casa da Moeda entre janeiro e dezembro de 2025. A instituição não respondeu ao contato sobre os resultados até a publicação.
O volume reaproveitado é de 200 toneladas por ano. Com a mudança, a Casa da Moeda deixa de arcar com custos logísticos para destinar os resíduos e tem impacto financeiro positivo estimado em aproximadamente R$ 249 mil por ano. Até 2022, grande parte do material era enviada para coprocessamento, processo que envolve a incineração para geração de combustível em fornos.
A iniciativa reúne a BP Security e o Instituto Tran$forma, braço da Equipa Group. Para a BP Security, o projeto permite uma operação com lucro líquido estimado em 34,8% e tem potencial de gerar mais de R$ 692 mil em receita anual com produtos feitos a partir do material recuperado.
Como o papel é reaproveitado
A BP Security produz o papel de segurança usado pela Casa da Moeda na fabricação de cédulas. O material tem fibra de algodão para aumentar a resistência ao desgaste e ao rasgo, além de poder receber marcas d’água e fios de segurança.
A empresa produz papel-moeda desde 1978 e atende 50 países. A técnica desenvolvida e patenteada pela companhia permite extrair e recuperar a fibra de algodão das aparas. O projeto começou em 2021, com a utilização dos mesmos caminhões que levavam papel virgem à Casa da Moeda para trazer os resíduos de volta.
Inicialmente, as aparas foram usadas na produção de caixas de pizza. Desde 2023, passaram a ser destinadas à fabricação de novos papéis para produtos que exigem baixa segurança, como rótulos. O material já chega picotado, o que permite aumentar a velocidade da máquina de papel e reduzir custos de mão de obra e energia.
No Brasil, as fibras recicladas ainda não são usadas na produção de cédulas. Alexandre Ambrozio Gilberti, diretor de Operações da BP Security, afirma que o processo pode ser adaptado para esse uso, incluindo elementos de segurança e mantendo a qualidade do produto final.
O Instituto Tran$forma utiliza as aparas na fabricação de mobiliário. Uma das aplicações está na Escola do Futuro do Estado de São Paulo, aberta em agosto deste ano em São Roque, com investimento público de R$ 40 milhões. A escola recebeu carteiras, cadeiras, mesas, armários, objetos de decoração e uma mesa de pingue pongue produzidos com aparas de cédulas descartadas por erros de impressão, corte ou outros defeitos.
Redução de emissões
O inventário estima que o uso das fibras recuperadas reduza em até 92% as emissões de dióxido de carbono em comparação com o algodão virgem. A emissão calculada cai de 2,6 mil kgCO₂e/t para 205 kgCO₂e/t.
O reaproveitamento também reduz o uso e a ocupação do solo, o consumo de água e a utilização de agroquímicos. O documento aponta ainda menor risco de contaminação do solo e de corpos d’água, mitigação de riscos sociais em cadeias agrícolas intensivas e fortalecimento da economia circular.
O Instituto Tran$forma calcula que uma cédula, cuja vida útil em circulação no Brasil é de três anos e meio, possa permanecer por cem anos em um novo ciclo quando transformada em mobiliário. A iniciativa pretende ampliar o reaproveitamento para as aparas geradas pelo Banco Central, além do material da Casa da Moeda.








