BRASÍLIA — A Polícia Federal apreendeu cerca de R$ 614 mil em dinheiro vivo em imóveis ligados ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) durante a quinta fase da Operação Compliance Zero, realizada em maio deste ano. Os documentos da investigação foram liberados após o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, retirar o sigilo de peças do caso que apura relações de agentes políticos com o Banco Master.
As buscas autorizadas pelo STF ocorreram em propriedades do senador e de familiares. Em um imóvel de Ciro Nogueira em Teresina, foram encontrados R$ 31.760,00 e 14.070 euros, equivalentes a cerca de R$ 83 mil na conversão atual, dentro de um cofre.
Na residência do senador em Brasília, onde ele estava durante a operação, os agentes apreenderam US$ 27.735, cerca de R$ 143 mil, e 1.555 euros, aproximadamente R$ 9,2 mil. Os valores estavam no escritório que pertenceu ao ex-ministro do governo Jair Bolsonaro.
Valores em imóveis de familiares
Na casa de Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, irmão do senador apontado pela investigação como intermediário na negociação de vantagens indevidas pagas pelo banqueiro Daniel Vorcaro, a PF encontrou 10.155 euros, aproximadamente R$ 60,1 mil, e US$ 55.733, equivalentes a R$ 287,3 mil. O dinheiro estava em um cofre.
Raimundo declarou aos policiais que o equipamento era um “cofre familiar” e que os valores eram economias para viagens internacionais. Também foram apreendidos veículos de luxo e aparelhos eletrônicos.
Na residência da ex-senadora Eliane Nogueira, mãe de Ciro, os investigadores encontraram reais, dólares e euros, mas não recolheram as quantias. O relatório registra que os valores eram compatíveis com a capacidade econômica da moradora e não apresentavam ligação direta identificada com os crimes investigados.
Consideradas as taxas de câmbio atuais, as apreensões somam R$ 614 mil. Na época dos mandados, o cálculo pelo câmbio médio indicava aproximadamente R$ 589 mil.
Documentos na churrasqueira
A Polícia Federal também apreendeu papéis na área da churrasqueira da casa de Ciro Nogueira em Brasília. Uma funcionária doméstica disse aos agentes que o senador teria ordenado a queima dos documentos, mas a ação não ocorreu antes da chegada dos policiais.
Entre os materiais havia um rascunho com o cabeçalho “Câmara”, acompanhado de nomes e anotações numéricas. O relatório menciona “Arthur”, “Hugo” e “Luizinho” como possíveis referências aos deputados federais Arthur Lira (PP-AL), Hugo Motta (Republicanos-PB) e Doutor Luizinho (PP-RJ). A PF afirma que os números associados aos nomes ainda precisam ser esclarecidos.
Ciro Nogueira é investigado sob suspeita de receber vantagens indevidas de Daniel Vorcaro para atuar no Congresso em favor de empresas do grupo Master. A PF também aponta que o senador teve viagens internacionais custeadas pelo banqueiro.
Em 2024, Nogueira apresentou uma proposta conhecida como “emenda Master”, que elevava de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a garantia máxima do Fundo Garantidor de Crédito. As apurações indicam ainda que ele atuou no Senado para impedir a coleta de assinaturas e a instalação de uma CPI sobre o banco.
O senador não respondeu aos contatos feitos por sua assessoria para comentar as apreensões e as menções nos relatórios. A liberação dos documentos ocorreu após um pedido do procurador-geral da República, Paulo Gonet, ao presidente do STF, Edson Fachin. O episódio provocou divergências públicas, incluindo críticas do ministro Alexandre de Moraes à condução do sigilo.








