SÃO PAULO — A nova estratégia de patrulhamento da Polícia Militar de São Paulo colocou em debate o uso de fuzis em motocicletas para combater roubos na capital. A Secretaria da Segurança Pública afirma que o armamento será empregado apenas em ocorrências de maior risco, enquanto especialistas divergem sobre os efeitos da medida para a população e para o combate ao crime.
O patrulhamento é feito pelo Batalhão de Resposta Avançada Operacional, o Bravo, que tem 250 policiais e 150 motos à disposição. A operação começou na terça-feira, 22, na região central, uma das áreas mais visadas pelos bandidos. Na ocasião, 16 policiais atuaram nas garupas.
Debate sobre o uso do fuzil
Para Rafael Rocha, coordenador de projeto do Instituto Sou da Paz, o armamento pesado é desproporcional em áreas movimentadas, como Sé e Brás. Ele também questiona se a prioridade não deveria ser o fortalecimento da investigação e de uma delegacia especializada.
O especialista cita a operação Frankmobile, coordenada pelo Ministério Público do Estado, que investigou receptação, desmonte de peças e venda clandestina de celulares. Cerca de 50 toneladas de celulares e outros materiais foram apreendidas. Para Rocha, combater essa cadeia seria mais efetivo do que ampliar o número de motos nas ruas.
Rodrigo Pimentel, ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais do Rio de Janeiro, defende uma avaliação diferente. Segundo ele, o fuzil pode intimidar assaltantes e evitar que policiais fiquem em desvantagem diante de grupos como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho. “É um armamento que provoca dissuasão”, afirmou.
O coronel da reserva da PM paulista José Vicente Silva discorda. Na avaliação dele, a demonstração de força pode aumentar o medo entre os moradores. Ele também considera necessário treinamento específico para a atuação na garupa, com integração entre o policial que pilota e o agente responsável pelo armamento.
Regras para o armamento
A Secretaria da Segurança Pública informou que os fuzis serão utilizados por policiais habilitados e destinados a ocorrências de maior risco ou complexidade. A pasta descartou o emprego automático em roubos de celulares e em ataques conhecidos como “quebra-vidros”. Os agentes também usam câmeras operacionais portáteis.
O secretário da Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, afirmou que a presença do Bravo também pretende mostrar a atuação da PM nas ruas. “É importante para nós que as pessoas notem a presença do Estado”, disse no lançamento da iniciativa.
O coronel Henguel Ricardo Pereira, secretário-executivo da Secretaria da Segurança, declarou que as motos podem facilitar o acesso a áreas onde viaturas encontram mais dificuldade, citando Heliópolis e Paraisópolis, na zona sul.
Treinamento e expansão
O Bravo foi planejado em março, e os treinamentos começaram em abril. A capacitação durou seis semanas e incluiu pilotagem, condução em situações de emergência, atuação nas ruas e tiro defensivo com armas longas.
Rafael Rocha avalia que a presença de um policial na garupa pode tornar a motocicleta mais instável e reduzir a capacidade de manobra. Pimentel reconhece o risco, mas afirma que os integrantes desse tipo de batalhão são preparados para circular com equipamentos de proteção. Ele acompanhou a adoção da estratégia pela PM do Rio de Janeiro há seis anos.
O modelo paulista teve como referência iniciativas de Goiás e do Ceará. Agentes de São Paulo foram ao Ceará para treinamento com a corporação local, que utiliza o Raio, sigla de Rondas de Ações Intensivas e Ostensivas.
A proposta é aumentar o contingente e levar o patrulhamento a outros pontos definidos pelas chamadas manchas criminais. A quantidade de agentes nas garupas será ajustada conforme a necessidade de cada operação. A Secretaria da Segurança também afirma que o uso do fuzil seguirá protocolos de uso da força e a avaliação de cada ocorrência.








