Londrina, Terça-feira, 29 de setembro de 2026
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Flávio admitiu pagamento de maio, mas houve nova parcela em setembro

Relatório do Coaf aponta que Daniel Vorcaro enviou mais 1,6 milhão de dólares para o fundo ligado ao filme Dark Horse.

Flávio ao lado de Mario Frias (à esq.), produtor do filme, Jim Caviezel, ator que interpreta Jair Bolsonaro, e Carlos Bolsonaro
								
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Breno Pires, de Brasília 01 Set 2026

Quando conversas comprometedoras com Daniel Vorcaro vieram a público, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, procurou a imprensa para tentar explicar o caso. Em entrevista, minimizou o áudio em que cobrava dinheiro de Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, cinebiografia de seu pai. Já perto do fim da conversa, afirmou ainda que o banqueiro não destinava qualquer dólar à produção havia meses, desde que as suspeitas sobre as fraudes do Master foram divulgadas. “Olha só. O último pagamento que ele fez [...] foi em maio de 2025”, declarou.

A afirmação, porém, não correspondia aos fatos. Uma reportagem publicada na edição deste mês mostra que, em 16 de setembro de 2025, Vorcaro encaminhou mais uma parcela de 1,6 milhão de dólares ao Havengate Development Fund, fundo americano que administrava os recursos de Dark Horse. O valor exato da transferência foi de 1 milhão, 666 mil e 667 dólares. A informação aparece em um relatório do Coaf, órgão responsável pela fiscalização de transações financeiras, obtido pela reportagem. O documento indica que a relação de compadrio financeiro entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro se prolongou por muito mais tempo do que o senador reconheceu.

A transferência ocorreu oito dias depois de Flávio mandar uma mensagem ao banqueiro para cobrar parcelas em atraso. Com esse pagamento, até então desconhecido, a soma enviada por Vorcaro à cinebiografia de Bolsonaro subiu de 10,6 para 12,3 milhões de dólares. Pela cotação daquele período, o montante correspondia a mais de 65 milhões de reais.

Nova cobrança e possível pagamento

Também existem indícios de que outro pagamento foi feito após uma nova cobrança de Flávio. Na manhã de 22 de outubro, quando as gravações já estavam no terceiro dia, o senador voltou a procurar Vorcaro. Às 8h54, escreveu: “Bom dia, mermão! Já estamos no terceiro dia de gravação. Estamos no limite.” Nove minutos mais tarde, insistiu: “Mais uma vez, com toda a liberdade que temos, se não der me fala que procuro urgente outro caminho.” Às 9h22, Vorcaro respondeu: “Deixa comigo irmão, vou ver agora.”

A pressão aparentemente funcionou. A reportagem teve acesso a um trecho inédito de conversas por WhatsApp entre Daniel Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda, que colaborou na captação de recursos para o filme. Em uma mensagem enviada ao banqueiro menos de 1 hora depois dos recados de Flávio, Miranda pergunta: “Consegue liberar as parcelas do filme?” Em seguida, acrescenta, acompanhado de um emoji: “Se não vai parar tudo por lá 😐”. Vorcaro responde: “Sim. Liberei mais uma hoje”, e Miranda retruca: “Vou avisá-los. Flávio disse que iria te ligar tb.” Na sequência, Vorcaro pede que Miranda se desculpe com Flávio pelos “atrasos” nas parcelas. Caso esse pagamento adicional de 1,6 milhão de dólares tenha sido realmente realizado, como afirmou o banqueiro, o total desembolsado por ele alcançará 14 milhões de dólares, ou 72 milhões de reais.

Com base nos dados conhecidos até agora, o acordo entre o banqueiro e o candidato à Presidência previa o pagamento de 24 milhões de dólares. Considerando a transferência realizada em setembro, chega a sete o número de parcelas reconhecidamente pagas por ordem de Daniel Vorcaro para atender Flávio Bolsonaro. O possível novo repasse de outubro representaria a oitava parcela.

Procurado para explicar por que omitiu que sua relação financeira com o banqueiro se estendeu praticamente por todo o ano de 2025 e qual foi o valor total pago, Flávio Bolsonaro não quis se manifestar. Sua assessoria afirmou que a produtora do filme deveria ser questionada sobre a existência de outros pagamentos. “Isso não é com a gente.” Mesmo diante da informação de que a nova parcela revelava uma mentira pública do candidato, a assessora manteve o entendimento de que Flávio não precisava dar explicações.

Outras declarações contestadas

Não é a primeira vez que o senador falta com a verdade no caso Dark Horse. Em março passado, depois que se tornou público que seu número estava na agenda de Vorcaro, Flávio disse a uma colunista que nunca havia mantido contato com o proprietário do Master. Quando questionado por um repórter sobre o motivo de Vorcaro ter financiado Dark Horse, Flávio reagiu: “É mentira, de onde você tirou isso?”

Na entrevista, ele também declarou que o Havengate era fiscalizado pela SEC, órgão americano equivalente à Comissão de Valores Mobiliários no Brasil. A informação é falsa. Por fim, afirmou que o fundo havia sido encerrado assim que surgiram as primeiras suspeitas sobre os negócios de Vorcaro. Nos registros fiscais do Texas, porém, o fundo continua ativo até hoje.

A polícia investiga agora o caminho percorrido pelo dinheiro. Os recursos não eram enviados diretamente pelas empresas de Vorcaro nem depositados na conta da produtora do filme, a Go Up Entertainment llc, nos Estados Unidos, que seria o trajeto habitual. Em vez disso, Vorcaro encaminhava os valores por meio de um doleiro, Antonio Freixo Junior, conhecido como “Mineiro”. Ele é dono da Entre Investimentos e Participações e já se apresentou publicamente como especialista em “câmbio de saída, que é uma coisa mais arriscada”. O destino dos recursos era o Havengate, fundo sediado no Texas e administrado por Paulo Calixto, advogado especializado em imigração, sem atuação na área cinematográfica e amigo de Eduardo Bolsonaro, que também mora no Texas.

Como o Havengate transferia os recursos para a produtora do filme, as investigações procuram esclarecer se todo o dinheiro realmente era destinado à produção cinematográfica. A polícia apura se parte dos valores permaneceu no fundo ou terminou nas mãos de Eduardo Bolsonaro, que passou a morar nos Estados Unidos em fevereiro do ano passado. Por coincidência, esse foi o mesmo mês e ano em que Vorcaro começou a enviar ao Havengate as parcelas destinadas ao filme. A primeira remessa, no valor de 2 milhões de dólares, foi feita em 13 de fevereiro de 2025.

Até o momento, não há evidências de que parte dos milhões enviados por Vorcaro tenha sido desviada para financiar a permanência de Eduardo nos Estados Unidos. Os investigadores, contudo, ainda buscam compreender melhor qual era a função desempenhada por Eduardo em relação aos recursos financeiros. Quando o áudio de Flávio foi divulgado em maio passado, Eduardo diminuiu sua participação na produção. Em entrevista, afirmou apenas que havia investido 50 mil dólares do próprio bolso no filme para assegurar a contratação do diretor, mas que o valor foi devolvido posteriormente.

Na documentação americana do filme, entretanto, Eduardo aparece ora como “produtor executivo”, ora como “financiador”. A investigação pretende determinar até que ponto ele controlava os recursos mantidos na conta do Havengate. A pergunta foi encaminhada à Go Up, mas não houve resposta objetiva. Na prática, o caso envolve duas caixas-pretas: a do filme e a do fundo.

Texto produzido pela Redação Ponto de Hoje com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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