Entre novembro de 2024 e setembro de 2025, o deputado federal Filipe Barros (PL-PR) apresentou sete requerimentos, um projeto de lei e promoveu uma audiência pública com iniciativas relacionadas ao Banco Master, ao Banco Central (BC), à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e a adversários do banqueiro Daniel Vorcaro. As ações ocorreram durante a tentativa de venda do banco ao BRB, que enfrentava questionamentos regulatórios.
Barros presidia a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN) quando intensificou sua atuação. Uma das medidas foi um projeto de lei com conteúdo idêntico ao da chamada “emenda Master”, proposta apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) no Senado. A iniciativa previa elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
O fundo era central no modelo do Banco Master, que oferecia remunerações acima da média do mercado para atrair investidores. A mudança não foi aprovada e poderia aumentar a exposição do FGC, mantido pelos grandes bancos. O fundo já perdeu cerca de R$ 57,4 bilhões em razão do caso envolvendo a instituição.
A proposta de Ciro Nogueira foi rejeitada no Senado. O relator, Plínio Valério (PSDB-AM), considerou que o assunto não deveria ser incluído na Constituição e que o tema poderia ser tratado por projeto de lei, caminho adotado por Barros na Câmara dos Deputados. O texto não foi votado e ficou parado até ser retirado de tramitação em fevereiro deste ano, três meses depois da liquidação do Banco Master e da primeira prisão de Daniel Vorcaro.
Em resposta, Barros disse que elaborou o projeto depois de tomar conhecimento da proposta de Ciro Nogueira, que classificou como uma “boa ideia”. O deputado afirmou que pretendia proteger investidores de prejuízos, negou ter discutido o assunto com o senador e disse que não teve contato com Vorcaro. Também reconheceu que retirou o texto por causa da repercussão do caso, mas afirmou que pretende reapresentá-lo no momento “oportuno”.
Questionamentos a órgãos reguladores
Em junho de 2025, Barros apresentou dois requerimentos para convidar o presidente da CVM, João Pedro Nascimento, a falar à CREDN sobre o impacto da estrutura regulatória do mercado de capitais na soberania econômica nacional. Os documentos também incluíam o conflito entre Irã e Israel e o risco de bloqueio do Estreito de Ormuz. A audiência ocorreu em 8 de julho.
O deputado ainda convidou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para tratar de ataques hackers ao sistema Pix registrados em junho. Galípolo não compareceu, pois havia sido convidado e não era obrigado a participar. Naquele momento, o BC já havia identificado fraudes em carteiras de crédito vendidas ao BRB, enquanto sua diretoria discutia entre liquidar o Banco Master ou buscar uma solução de mercado.
João Pedro Nascimento participou da audiência. Dez dias depois, renunciou à presidência da CVM, um ano antes do fim do mandato. O então presidente relatou a aliados que sofria ameaças e mencionou o tratamento recebido na comissão. Barros questionou a área técnica da autarquia e levantou suspeitas de conflitos de interesse no mercado de capitais.
Antes da audiência, o deputado apresentou um requerimento de informações à Previc sobre o chefe da autarquia ter votado em processos relacionados ao BTG Pactual enquanto o irmão ocupava um cargo na área de investimentos do banco. O BTG, de André Esteves, era considerado um dos principais rivais de Vorcaro antes da liquidação do Master.
Pressão sobre o Banco Central
Em 3 de setembro, data em que o Banco Central rejeitou a compra do Banco Master pelo BRB, Barros protocolou outro requerimento. O documento questionava o encerramento da liquidação extrajudicial do Banco Econômico e do Banco Nacional, posteriormente comprados pelo BTG Pactual. O foco era a Diretoria de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução (Diorf), comandada por Renato Gomes. O requerimento foi aprovado três semanas depois.
Gomes defendia a liquidação do Banco Master, posição apoiada por Gilneu Vivan, então diretor de Regulação. A proposta enfrentava a resistência de Aílton Aquino, diretor de Fiscalização, que defendia a compra do banco pelo BRB. Gomes deixou a cúpula do Banco Central após o fim do mandato, em dezembro passado.
O caso também envolve o chamado “Projeto DV”, campanha financiada por Daniel Vorcaro para atacar o Banco Central e exaltar o Tribunal de Contas da União (TCU). O relator do caso no TCU, Jhonatan de Jesus, ameaçava reverter a liquidação e apontava possíveis irregularidades. A campanha foi estruturada pelo empresário Thiago Miranda, ex-CEO do Portal Léo Dias e dono da Agência MiThi.
Relação com Eduardo Bolsonaro
Filipe Barros assumiu a presidência da CREDN no lugar de Eduardo Bolsonaro no início de 2025. O deputado havia sido indicado pelo PL para comandar o colegiado, mas deixou a função após anunciar seu “autoexílio” nos Estados Unidos e a licença do mandato. Em uma live, Eduardo afirmou que continuaria influenciando a pauta da comissão por meio de Barros.
“Tenho o telefone dele, tenho falado com ele”, declarou Eduardo Bolsonaro. Barros negou que as iniciativas relacionadas ao Banco Master tenham sido discutidas com Eduardo ou Flávio Bolsonaro. Disse manter contato com Eduardo sobre outros assuntos e afirmou ter visitado o ex-colega nos Estados Unidos em agenda oficial.
Barros também negou irregularidades em sua atuação parlamentar e declarou estar disposto a abrir seus dados financeiros. “Nunca recebi mesada de Vorcaro”, afirmou. Sobre os requerimentos e a proposta de ampliação do FGC, disse ter interesse na regulação dos mercados financeiro e de capitais e defendeu que os temas fossem discutidos na CREDN por considerar inseparáveis a soberania nacional e a econômica.








