SÃO PAULO — A Copa do Mundo feminina de 2027 colocará São Paulo no centro do torneio, mas também expõe o desafio de manter investimentos e ampliar a formação de jogadoras depois da competição. O Mundial será realizado no Brasil entre 24 de junho e 27 de julho de 2027, com abertura e final no Maracanã, no Rio.
A Neo Química Arena, estádio do Corinthians, receberá 10 jogos. O local já foi palco de partidas femininas com mais de 40 mil torcedores, especialmente em decisões e clássicos da equipe, que costuma transferir esses compromissos da Fazendinha, no Parque São Jorge, para Itaquera.
Clubes paulistas em momentos diferentes
O Corinthians retomou o futebol feminino em 2016, depois de encerrar o projeto em 2009. Sob a liderança de Cris Gambaré, hoje coordenadora da seleção feminina, o clube conquistou sete dos últimos oito Campeonatos Brasileiros e é hexa da Libertadores.
O Palmeiras também ampliou o investimento. A presidente Leila Pereira prometeu destinar R$ 23 milhões ao projeto ao longo de 2026. O São Paulo tenta alcançar os rivais e vive grande temporada. No litoral, o Santos busca recuperar o protagonismo que teve cerca de 15 anos atrás, quando chegou a reunir Cristiane e Marta. A Ferroviária, de Araraquara, segue entre as principais forças da modalidade.
Para a historiadora Aira Bonfim, a permanência de clubes femininos em São Paulo também foi favorecida por políticas públicas e parcerias municipais. Ela cita São José e Araraquara como exemplos de iniciativas que envolveram prefeituras, espaços esportivos e recursos além dos patrocinadores.
A exigência de equipes femininas para clubes participantes de competições organizadas por Conmebol e Fifa passou a valer em 2018. A CBF adotou medida semelhante em 2019 como condição para disputar a Série A do Brasileirão. O Corinthians já tinha um projeto estruturado quando essas regras foram estabelecidas.
O legado além dos grandes clubes
A Federação Paulista de Futebol criou, em 2016, o primeiro departamento estadual dedicado exclusivamente ao futebol feminino. A iniciativa levou Aline Pellegrino, ex-zagueira de Santos e São Paulo, à coordenação da divisão. Hoje, ela é gerente de competições femininas da CBF e diretora executiva de legado e relações institucionais da Copa do Mundo.
Desde 2017, a federação organizou competições de base para meninas nas categorias sub-12, sub-14, sub-15, sub-17 e sub-20. Ainda assim, há diferenças entre a estrutura profissional e as oportunidades oferecidas em bairros, escolas e categorias menores.
Segundo a CBF, o número de clubes em competições adultas e de base subiu de 58 para 79 entre 2021 e 2026. Aira Bonfim afirma, porém, que a cadeia de formação ainda é desigual e pode envolver projetos sociais, Clubes Desportivos da Comunidade, clubes de várzea, escolinhas e equipes profissionais sem um caminho institucionalizado.
O projeto Guapas, que usa os Clubes Desportivos da Comunidade da cidade, é citado como exemplo das dificuldades existentes. Alguns desses espaços não têm banheiros femininos adequados. A pesquisadora também afirma que os caminhos de formação ainda não estão claros nem completamente mapeados dentro da Federação Paulista.
A secretária extraordinária da Copa, Juliana Agatte, vinculada ao Ministério do Esporte, diz que a experiência acumulada por São Paulo pode estimular outros estados. Para ela, o resultado depende de planejamento e de investimento na base, e não apenas da montagem de equipes por exigência das competições masculinas.
Gabi Sabino, idealizadora da Copa Elas Jogam, defende que o aumento esperado do interesse pela modalidade seja acompanhado por escolas, clubes comunitários e políticas públicas preparados para atender novas jogadoras.
O futebol feminino foi regulamentado no Brasil em 1983, depois de um período de ilegalidade entre 1941 e 1979. No ABC Paulista, o Saad Esporte Clube, de São Caetano, estava entre os primeiros a manter uma equipe feminina, dois anos após a regulamentação.
A história também registra projetos interrompidos. As jogadoras do Corinthians foram ao Parque São Jorge cobrar direitos de imagem atrasados, e parte do acordo para quitar a dívida não foi cumprida. O episódio reforça a preocupação com a continuidade dos projetos após a visibilidade proporcionada pela Copa de 2027.








