FLORIANÓPOLIS — A conversão de um pajé ao cristianismo é o ponto de partida de O Pai e o Pajé, documentário apresentado por Iawarete Kaiabi no FAM 2026. O cineasta investiga o que levou o próprio pai, antes responsável pela vida religiosa de sua comunidade, a abandonar crenças anteriores e assumir a função de líder evangélico.
“Este filme é minha busca”, afirma Kaiabi. A produção acompanha a tentativa do jovem indígena de compreender por que parte de seu povo escolhe o cristianismo e deixa de seguir tradições que, antes, organizavam e unificavam a comunidade.
O filme também registra paisagens e comunidades indígenas sob pressão. Entre as ameaças abordadas estão a exploração econômica, o desrespeito às demarcações e o garimpo. A presença de igrejas evangélicas aparece como outro elemento de transformação, ao associar práticas religiosas tradicionais à ideia de pecado e alterar referências culturais de longa duração.
Uma mudança que ultrapassa a história familiar
Ao ouvir as justificativas do antigo pajé, o documentário expõe as razões apresentadas para a conversão e as relaciona à expansão das igrejas evangélicas entre indígenas. A mudança de papel — de sacerdote da comunidade a pastor — é apresentada como parte de uma disputa em torno da fé e das tradições.
O tema também aparece em Eu, Pajé, filme do cineasta Luiz Bolognesi. Nele, o sacerdote indígena perde sua posição e passa a trabalhar para o pastor que concentra a condução religiosa da comunidade, enquanto a cultura espiritual indígena é estigmatizada.
As duas obras deixam em aberto a questão que orienta a investigação: por que alguém aceita abrir mão de suas próprias referências e se submeter a uma nova autoridade? A pergunta, apresentada no documentário, não se limita aos povos indígenas e alcança as escolhas de qualquer pessoa diante de formas de submissão voluntária.








