Best-sellers e clássicos da literatura vêm ganhando novas versões no cinema e no streaming. Na última quarta-feira, 23, estreou no Prime Video A Hipótese do Amor, romance de Ali Hazelwood. Ainda este ano, estão previstas adaptações de Verity, de Colleen Hoover, Jogos Vorazes: Amanhecer na Colheita e uma nova série de Harry Potter.
A presença de obras literárias no audiovisual não é recente. Fabiano Grendene de Souza, cineasta e professor do Curso de Produção Audiovisual da PUCRS, define a adaptação como uma prática histórica e constante. Para ele, livros oferecem narrativas e personagens já conhecidos, o que facilita a comunicação das produções com um público mais amplo.
Entre as séries dramáticas originais britânicas e americanas disponibilizadas pela Netflix, pelo Prime Video e pelo Disney+ entre janeiro de 2024 e junho de 2025, 48% foram baseadas em livros. A audiência média dessas adaptações ficou 21% acima da registrada pelas produções sem origem literária, conforme relatório publicado em março de 2026 pela Publishers Association.
Expectativas dos leitores
A avaliação de uma adaptação começa antes da estreia. Elenco, cenas escolhidas e alterações nos personagens são discutidos desde os primeiros anúncios, principalmente nas redes sociais. Cris Siqueira, criadora de conteúdo do perfil Cris e Panda, afirma que o público procura reencontrar a marca deixada pela leitura: “A primeira coisa é a gente querer ver aquilo que marcou a leitura para a gente”.
Cada leitor constrói uma imagem própria para os personagens, incluindo aparência, voz e comportamento. Quando a história chega às telas, o audiovisual apresenta apenas uma dessas possibilidades. Mudanças de roteiro podem ser aceitas quando ajudam no ritmo da produção, conectam temporadas ou atualizam a linguagem para outra geração.
As redes ampliaram o alcance das conversas sobre as adaptações. Sugestões de elenco, cenas aguardadas e modificações na história geram publicações antes e depois do lançamento. A discussão pode reforçar expectativas e aumentar o conhecimento do público sobre a obra.
Impacto nas livrarias
A série de Um Dia, lançada pela Netflix em fevereiro de 2024, teve reflexo nas vendas do livro de David Nicholls no Reino Unido. Nas 26 semanas anteriores à estreia, foram vendidos 3.216 exemplares. No período de 26 semanas posterior, o volume chegou a 143.193 cópias, segundo dados da NielsenIQ BookData reunidos no relatório Books on Screen, da Publishers Association.
Na editora Rocco, os lançamentos ou anúncios de adaptações costumam ao menos dobrar ou triplicar as vendas, de acordo com a editora-executiva Ana Lima. O efeito varia conforme o alcance do filme ou da série e pode se concentrar no título adaptado ou em outros livros da mesma coleção.
A atenção também pode retornar a obras mais antigas. O relançamento em 4K de A Hora da Estrela, filme de 1985 dirigido por Suzana Amaral, veio acompanhado de nova circulação da produção e de trechos publicados nas redes sociais. A movimentação aumentou a procura pelo livro de Clarice Lispector.
Antes das estreias, a editora ajusta tiragem, estoque, distribuição e divulgação. Boxes, audiolivros e edições ilustradas também podem ser lançados. Ana Lima afirma: “Nas franquias maiores, os fãs são sedentos por novidades”. A Rocco prepara produtos de Jogos Vorazes e Harry Potter para acompanhar as próximas produções.
Nem toda adaptação impulsiona a venda de livros, e nem todo comprador termina a leitura. Ainda assim, filmes e séries podem reaproximar o público das obras: alguns chegam à tela depois de ler, enquanto outros procuram o livro após assistir à produção.







