Londrina, Terça-feira, 29 de setembro de 2026
O Brasil em um ponto
Economia

A tolerância cotidiana que mantém a ilegalidade e o mau governo

A conivência com pequenas e grandes transgressões sustenta um equilíbrio político em que ninguém tem incentivo individual para mudar.

A tolerância cotidiana que mantém a ilegalidade e o mau governo
Foto: Antonio Augusto/Ascom/TSE

A convivência brasileira com a ilegalidade, o descumprimento de promessas e o mau funcionamento do Estado não se resume à falta de indignação. Ela resulta de um sistema de incentivos que favorece a transgressão e não impõe custo suficiente à conivência.

O exemplo mais cotidiano é o pagamento ao flanelinha. O cidadão deixa o carro em uma via pública, é cobrado pela suposta proteção do veículo e, diante do risco de prejuízo à lataria ou à própria segurança, aceita a exigência. A cobrança pode ocorrer diante de policiais, enquanto o espaço público é submetido a uma privatização informal.

A tolerância também alcança bicheiros, grileiros, desmatadores, garimpeiros ilegais, grandes sonegadores e políticos reconhecidamente corruptos. Essas pessoas circulam em ambientes de elite sem sofrer constrangimento social significativo. Prefeitos e governadores entregam obras que não duram, descumprem compromissos e ainda conseguem ser reeleitos.

Uma regra que depende de quem está envolvido

A explicação não está em um suposto defeito moral nacional. A interpretação apresentada é que os brasileiros respondem racionalmente a um ambiente no qual a punição é improvável e a quebra da regra pode trazer vantagens. A tradição de estudos sobre o país descreve a dificuldade de separar relações pessoais e normas impessoais. Nessa lógica, a lei pode valer de forma diferente conforme a posição e os vínculos de cada pessoa.

Uma pesquisa sobre a percepção do cumprimento das leis apontou que 82% dos brasileiros consideram fácil desobedecê-las. O levantamento também indicou uma percepção mais negativa entre pessoas de maior renda e escolaridade, além de maior declaração de comportamentos inadequados. A ilegalidade, portanto, não pode ser atribuída apenas à falta de instrução.

A contradição aparece na distância entre o discurso moral e a prática social. A corrupção é condenada em abstrato, mas tolerada nas relações cotidianas quando beneficia conhecidos ou atende a interesses próprios. A hierarquia social reforça essa permissividade: quanto mais desigual é a visão de mundo, maior tende a ser a aceitação do chamado jeitinho.

Por que o voto não rompe o ciclo

A baixa confiança entre as pessoas dificulta uma reação coletiva. No Brasil, ela está na casa de 5%, contra 21% no Uruguai. A confiança nas instituições permanece abaixo de 50% da escala há quase duas décadas e alcançou, em 2024, seu pior nível em muitos anos.

Nesse ambiente, cada cidadão administra individualmente seus problemas, sem transformar a experiência em cobrança política. O eleitor não relaciona o buraco da rua ao voto que deu nem associa decisões de governos estaduais ou de Brasília às dificuldades do cotidiano. O resultado é um equilíbrio no qual o transgressor não muda porque a sanção legal é improvável, o conivente não se mobiliza sozinho e o político não precisa entregar uma obra duradoura para ser reeleito.

Mudanças desse tipo ocorrem quando o custo da tolerância se torna visível e a fiscalização passa a ser crível. A inflação crônica, o cinto de segurança, a proibição de fumar em ambientes fechados e a Lei Seca são apresentados como exemplos de normas que passaram a ser respeitadas depois que a reprovação social e a fiscalização deixaram de ser opcionais.

No agronegócio, a tolerância ao desmatamento ilegal e à grilagem também passou a gerar custos externos. Mercados podem ser fechados, o crédito pode ficar mais caro e contratos podem incorporar exigências ambientais. A sanção não aplicada internamente aparece, nesse caso, como barreira comercial e perda de reputação.

O que fica fora do debate eleitoral

Além da anestesia diante da ilegalidade, há uma distração sobre transformações que já reorganizam a economia: a transição climática e ecológica, a fragmentação da ordem política internacional e a mudança tecnológica. Esses temas aparecem pouco nos programas, debates e discussões eleitorais.

A inteligência artificial é apresentada como uma oportunidade para enfrentar o baixo crescimento da produtividade. O país avançou muitas vezes apoiado por preços de commodities e ciclos de crédito, sem resolver de forma duradoura o problema da eficiência. Investimentos em inovação, formação de pessoas, pesquisa aplicada e difusão tecnológica passaram a ser tratados como condição econômica, não apenas como tema acadêmico.

A eleição não resolverá esses problemas, mas oferece uma oportunidade institucional de avaliar a tolerância praticada pelos próprios eleitores. Diante da urna, a cobrança pode incluir obras que duraram pouco, promessas não cumpridas e decisões que afetaram o cotidiano. A anestesia, nessa interpretação, não é destino: é uma escolha repetida. O desafio permanece em transformar a indignação moral em exigência pública e impessoal.

Texto produzido pela Redação Ponto de Hoje com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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