A Nvidia está usando financiamento próprio para acelerar a construção de infraestrutura de inteligência artificial. Por meio de acordos que somam US$ 1 trilhão, a fabricante de chips oferece dinheiro ou garantias a donos de data centers e laboratórios de IA interessados em comprar suas unidades de processamento gráfico (GPUs).
A estratégia elevou preocupações sobre uma possível bolha. Críticos comparam o modelo ao financiamento de fornecedores que ajudou a inflar as receitas de fabricantes de equipamentos de rede, como a Cisco, durante a bolha da internet de 2000-2001. Na avaliação deles, a Nvidia pode estar sustentando artificialmente a demanda por seus produtos.
Exposição financeira e concorrência
O Morgan Stanley estima que a exposição total da Nvidia ao crédito — incluindo empréstimos e suporte a clientes — chegará a US$ 200 bilhões até o início de 2029. A dívida oculta pode alcançar US$ 300 bilhões ou mais.
A empresa tem US$ 99 bilhões em caixa e continua gerando recursos. Suas vendas anuais praticamente dobraram nos últimos três anos, enquanto as margens brutas passaram de menos de 60% para 75%. A previsão é que a Nvidia gere cerca de US$ 200 bilhões neste ano.
Esse caixa permite que a companhia sustente contratos com compradores de GPUs sem depender da mesma estrutura de dívida usada pela Cisco. Mesmo com uma estabilização dos compromissos a partir do próximo ano, a Nvidia ainda seria, em 2028, menos alavancada que todas as empresas, com exceção de 39 companhias não financeiras do S&P 500. Seus lucros teriam de cair 60% para que a classificação de crédito deixasse de ser de grau de investimento.
A posição da Nvidia também está sob pressão competitiva. Cerca de metade de sua receita vem dos hiperescaladores americanos de computação em nuvem, principalmente Amazon, Google, Meta e Microsoft. Essas empresas desenvolvem chips próprios. A participação dos chips de IA que não são da Nvidia subiu de 26% de 2023 para 38% do mercado.
O tamanho da aposta
A Nvidia foi criada em 1993 e se tornou a empresa mais valiosa do mundo, com avaliação de US$ 5,4 trilhões. Suas vendas podem atingir US$ 1 trilhão até 2029, e o lucro líquido poderá chegar a US$ 370 bilhões no próximo ano.
O preço das ações aumentou 14 vezes desde o lançamento do ChatGPT, no final de 2022. As dez maiores empresas de capital aberto ligadas ao desenvolvimento da IA representam 40% do valor do índice S&P 500; a Nvidia responde sozinha por 8%.
A empresa gerou cerca de 15 centavos de cada dólar obtido pelo mercado de ações americano desde 2023. O crescimento transformou a fabricante, antes associada a chips para jogadores de videogame e mineradores de criptomoedas, em um dos pilares da economia.
A comparação com a Cisco decorre do fato de que as duas companhias projetaram vendas com base em uma expansão acelerada da demanda. No caso da Nvidia, a aposta depende do crescimento no uso de tokens de IA. O ritmo de adoção da tecnologia ainda é difícil de prever, e uma desaceleração poderia levar clientes a acionar garantias quando as vendas da fabricante estivessem caindo. Também não está claro quanto valeriam chips usados recuperados pela empresa.
Receita já existente
A demanda por inteligência artificial, porém, já gera receita para empresas do setor. As vendas da Anthropic passaram de US$ 5 bilhões no primeiro trimestre para US$ 11,5 bilhões no segundo. A OpenAI, principal concorrente do laboratório, provavelmente não está muito atrás.
Os hiperescaladores também registram receitas relacionadas à IA. No total, a tecnologia pode estar gerando cerca de US$ 150 bilhões por ano para o setor de tecnologia americano, ante zero há alguns anos. O valor ainda está distante dos US$ 2,5 trilhões necessários para cobrir os gastos de capital com IA, mas cresce rapidamente.
Jensen Huang, chefe da Nvidia, afirma que o principal obstáculo à expansão da inteligência artificial é a infraestrutura insuficiente, e não a falta de demanda. Como os mercados não ofereceriam capital na escala necessária, a companhia decidiu financiar parte da expansão.
Além da Nvidia, os hiperescaladores e investidores de Wall Street também mantêm exposição à construção de data centers. No mês passado, Goldman Sachs, BlackRock, Blackstone e outros grupos se juntaram à Nvidia em uma iniciativa avaliada em US$ 500 bilhões.
Se a aposta der errado, os principais custos deverão recair sobre os acionistas da Nvidia. Se for bem-sucedida, a estratégia poderá acelerar a adoção da IA, aumentar a produtividade e antecipar a expansão da tecnologia.








