O conflito entre a visão individual de um arquiteto e as exigências de uma obra pública conduz O Grande Arco de Paris, filme dirigido por Stéphane Demoustier e em cartaz nos cinemas. A produção acompanha Otto Von Spreckelsen, profissional dinamarquês escolhido para projetar o Grande Arche de la Défense, e concentra-se menos na reconstituição histórica do empreendimento do que em sua personalidade e em sua dificuldade de negociar.
Um projeto maior que o autor
Em 1983, François Mitterrand lançou um concurso internacional para definir o responsável pela construção do monumento, pensado como um dos marcos urbanísticos de sua administração. Von Spreckelsen, então com 53 anos, venceu mais de 400 concorrentes, apesar de ter experiência restrita à própria casa e a duas igrejas locais, uma católica e outra protestante.
O arquiteto participou da disputa individualmente, sem o respaldo de um escritório. No filme, essa escolha reforça sua ingenuidade diante da dimensão do trabalho. Habituado a uma rotina tranquila e admirado pelos alunos, ele se vê envolvido em uma obra de grande escala sem compreender inteiramente os obstáculos administrativos, técnicos e políticos que surgiriam.
O Grande Arche de la Défense foi erguido no centro financeiro de Paris, no prolongamento de um eixo que passa pelo Museu do Louvre, pela Praça da Concórdia, pela Avenida Champs-Élysées e pelo Arco do Triunfo. A obra foi inaugurada em 1989, no bicentenário da Revolução Francesa.
A resistência como problema
Von Spreckelsen desenhava à mão, recusava cálculos em computador e desprezava os profissionais franceses designados para ajudá-lo. Sua intransigência, apresentada como parte de seu talento artístico, também se torna a principal barreira para a execução do projeto. Ele abandona a empreitada em 1986, exausto com as resistências que não conseguiu administrar, e morre no ano seguinte sem assistir à inauguração.
O embate se intensifica com Jean-Louis Subilon, assessor direto de Mitterrand e porta-voz das engrenagens políticas que cercam a obra. Para garantir a execução e cumprir prazos ameaçados pela condução pouco prática do idealizador, o governo coloca Paul Andreu, arquiteto e engenheiro, como gerente operacional.
A administração de Mitterrand, que ocupou a Presidência de 1981 a 1995, também deixou em Paris a pirâmide de vidro do Louvre, a Ópera da Bastilha e a nova Biblioteca Nacional. Esses empreendimentos são apresentados como iniciativas humanistas em contraste com monumentos militares, como o Arco do Triunfo.
Drama íntimo
O diretor acrescenta Liv Von Spreckelsen, mulher do arquiteto, como personagem fictícia. Ela funciona como apoio emocional e contraponto racional em um ambiente predominantemente masculino: negocia valores, lê contratos e tenta mostrar ao marido as concessões feitas em favor de suas próprias exigências.
Com essa abordagem, o longa propõe perguntas sobre o controle que um artista pode exercer sobre sua criação e sobre a necessidade de ceder diante de regras, vaidades e divergências. A história também questiona se o talento necessário para conceber uma obra é suficiente para coordenar pessoas e administrar conflitos políticos.
A opção pelo perfil psicológico reduz o espaço para explicações históricas, políticas e técnicas sobre o monumento. Em vez de um registro documental, o filme assume a forma de um drama existencial e intimista. As interpretações, a reconstituição de época e as paisagens de Paris são destacadas, mas o desfecho é abrupto e pode deixar dúvidas em quem não conhece os acontecimentos históricos e a personalidade de Von Spreckelsen.









