Um comentário da jornalista Maria Cristina Fernandes, feito em 24 de setembro de 2026 no programa GloboNews Em Pauta, reacendeu o debate sobre a existência de um movimento de evangélicos que pressionaria pela retirada do título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida.
A emissora pediu desculpas após pressão de bolsonaristas e informou que o projeto de lei mencionado havia sido arquivado em 2008. A proposta, porém, foi apresentada pelo deputado e pastor Victório Galli, posteriormente nomeado assessor especial do governo de Jair Bolsonaro.
A discussão também foi associada à declaração de Flávio Bolsonaro de que pretendia decretar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. O episódio recuperou um histórico de ataques contra imagens católicas e contra a devoção a Nossa Senhora Aparecida.
Da devoção ao atentado de 1978
A imagem, esculpida em terracota por volta do ano 1600, foi encontrada por três pescadores no Rio Paraíba do Sul em 1717. A tradição católica afirma que a cabeça apareceu em uma segunda tentativa de pesca, seguida por uma captura abundante de peixes.
Em 1930, Nossa Senhora Aparecida foi declarada oficialmente Padroeira do Brasil por decreto do papa Pio XI. A imagem passou a ser preservada na Basílica Velha de Aparecida e, em 16 de maio de 1978, foi destruída durante um ataque cometido por Rogério Marcos de Oliveira, então com 19 anos.
Durante um blecaute provocado por uma tempestade, Rogério quebrou o vidro do nicho, retirou a estátua e a lançou ao chão. A imagem se fragmentou em mais de 200 pedaços. A cabeça se esfarelou parcialmente, mas a peça foi restaurada por Maria Helena Chartuni, do Museu de Arte de São Paulo, e retornou ao santuário em agosto de 1978.
Outros ataques e tensão política
O atentado de 1978 não encerrou os ataques associados a grupos que consideram o culto de imagens uma forma de idolatria. Em 12 de outubro de 1995, o pastor Sérgio Von Helder chutou e socou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um programa exibido ao vivo pela Rede Record. Ele foi condenado por discriminação religiosa e vilipêndio a objeto de culto.
Também houve ataques em Águas Lindas de Goiás, em 2012; em igrejas de Minas Gerais, em 2014; na Catedral de Santo Antônio, em Duque de Caxias, em 2016; e em Botucatu, no ano seguinte. Em Santo Antônio da Platina, no Paraná, uma imagem foi destruída e queimada pelo pastor Miguel Moreira em 2021. Em 2022, outra imagem foi destruída em uma praça de Praia Grande, no litoral paulista.
A tensão alcançou o campo político. Em 2021, o deputado estadual Frederico D’Ávila, aliado de Jair Bolsonaro, insultou o arcebispo de Aparecida, dom Orlando Brandes, e atacou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Em 12 de outubro de 2022, a visita de Bolsonaro ao Santuário Nacional de Aparecida, durante a campanha eleitoral, provocou críticas de setores da Igreja Católica por causa da presença de manifestações políticas no complexo religioso.









