A escolha de elencos pode ser o principal obstáculo para a participação de artistas com deficiência em diferentes produções culturais, avalia Daniel Silva, bailarino e cofundador da Movidos Dança, do Rio Grande do Norte. Para ele, profissionais com deficiência não devem ficar restritos a personagens que também tenham deficiência.
Silva participa do festival Acessa BH com os espetáculos ‘SER(tão)’ e ‘Nuvem de Pássaros’. Em sua avaliação sobre o cripface — prática de escalar pessoas sem deficiência para interpretar personagens com deficiência —, ele afirma que essa escolha contraria a proposta de inclusão e reduz oportunidades de trabalho para artistas que poderiam desempenhar esses papéis.
“É como desconsiderar e desqualificar uma grande quantidade de artistas com deficiência que poderiam e deveriam ocupar esses lugares”, disse Silva. Para o bailarino, pessoas com deficiência precisam ter a possibilidade de contar histórias e ocupar espaços artísticos em diferentes funções.
Além dos personagens sobre deficiência
Silva questiona a lógica de convocar atores e atrizes com deficiência apenas para papéis associados a essa condição. Na visão dele, esses profissionais também devem representar protagonistas, vilões, pessoas bem-sucedidas, personagens que vivem relacionamentos, cometem erros, fazem escolhas e simplesmente vivem.
A temática da deficiência, segundo o bailarino, também pertence a esses artistas, mas não pode ser o único campo autorizado para sua atuação. O ponto central, afirma, é discutir por que profissionais com deficiência não podem abordar outras questões quando são chamados para determinados papéis.
Capacidade artística e barreiras de escalação
Silva rejeita o argumento de que características físicas relacionadas à deficiência impediriam determinadas performances, como cantar em um espetáculo musical. Ele defende a presença de pessoas com deficiência em atividades como canto, dança e atuação.
“A ideia de uma estética do perfeito nada mais é do que uma ferramenta para delimitar espaços e validar o capacitismo e outras formas de preconceito”, declarou.
O bailarino afirma que o impedimento muitas vezes não está na capacidade do artista, mas na decisão antecipada de quem seleciona o elenco sobre o que uma pessoa com deficiência pode ou não fazer.
‘SER(tão)’ combina forró, baião, xote e embolada com dança contemporânea e música eletrônica, em uma proposta de celebração da diversidade do Nordeste. ‘Nuvem de Pássaros’ parte da trajetória de espécies que compartilham rotas de voo para enfrentar climas adversos, escapar de ameaças e buscar melhores condições de sobrevivência juntas. A obra relaciona essa convivência à reflexão sobre a coletividade humana e seus conflitos.








