Londrina, Terça-feira, 29 de setembro de 2026
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Dean Baquet vê ameaça inédita ao jornalismo independente nos Estados Unidos

Ex-editor do New York Times aponta ataques políticos e crise econômica como riscos centrais para a imprensa americana.

Dean Baquet vê ameaça inédita ao jornalismo independente nos Estados Unidos
Foto: Gabriella Lodi/Estadão

Dean Baquet, ex-editor-executivo do The New York Times, afirmou que o jornalismo independente nos Estados Unidos enfrenta uma ameaça como ele nunca viu. Para ele, os ataques de políticos à imprensa se somam ao enfraquecimento econômico das redações, em um cenário de queda da confiança pública e transformação tecnológica.

Baquet comandou a redação do Times de maio de 2014 a junho de 2022. Foi o primeiro homem negro a ocupar o posto mais alto da redação do jornal. Antes, trabalhou como repórter investigativo no Chicago Tribune, recebeu o Pulitzer de 1988 por uma série sobre corrupção no Conselho Municipal de Chicago, dirigiu o Los Angeles Times entre 2005 e 2006 e chefiou a sucursal de Washington do Times.

Atualmente, lidera o Local Investigations Fellowship, programa que orienta repórteres de veículos locais em grandes investigações sobre suas próprias comunidades.

As lições da eleição de Trump

Ao avaliar a cobertura da eleição de Trump em 2016, Baquet disse que a imprensa americana não compreendeu a dimensão das mudanças no país. Segundo ele, as redações deveriam ter investigado mais a incerteza econômica, as divisões raciais e a rejeição às elites políticas, em vez de concentrar a atenção em políticos e profissionais da política.

Para o jornalista, esse aprendizado continua válido na cobertura das instituições democráticas, dos tribunais, do Congresso e do processo eleitoral. Ele defendeu que os repórteres deixem os círculos políticos e conversem com pessoas comuns em diferentes regiões dos Estados Unidos.

Baquet avaliou que parte da raiva existente antes da eleição de Trump permanece, mas agora também se volta contra decisões do próprio governo. Citou o envolvimento do país em outra guerra, a alta dos juros e o aumento do preço da gasolina como fatores presentes na insatisfação econômica mencionada por ele.

Na avaliação do ex-editor, as redações melhoraram desde 6 de janeiro ao distinguir ameaças à democracia de conflitos políticos comuns. Ele afirmou que passou a existir mais discussão sobre as divisões do país e sobre iniciativas para restringir o número de pessoas que podem votar.

Sobre a invasão do Capitólio, Baquet disse que a gravidade ficou evidente desde o começo. Repórteres que estavam no local sentiram que suas vidas corriam risco, e uma fotógrafa ficou cercada. “Foi, de fato, um ataque violento”, afirmou.

Jornal sem alinhamento partidário

Baquet manteve a defesa de que o Times não deve atuar como oposição a nenhum presidente. Para ele, o jornalismo precisa fazer perguntas difíceis a todos, inclusive sobre a idade de candidatos e ocupantes da Presidência. O alinhamento com um partido, disse, reduziria a capacidade de questionar os demais grupos políticos.

Ele também rejeitou a ideia de que os Estados Unidos tenham deixado de ser uma referência para a imprensa livre e independente. A existência de veículos capazes de publicar reportagens e de editores que podem fazer críticas públicas, segundo Baquet, mostra que ainda há jornalismo independente no país.

Ao mesmo tempo, afirmou que a imprensa está sob pressão por causa de ataques políticos, mentiras sobre jornalistas e ofensas, principalmente contra mulheres jornalistas, em coletivas de imprensa. Para ele, porém, a maior ameaça é econômica.

Baquet comparou redações que antes reuniam quinhentas pessoas com estruturas que agora têm doze. Também citou equipes que tinham repórteres espalhados por todo um estado e hoje funcionam em uma única sala. Na sua avaliação, o governo Trump encontrou o jornalismo em um momento de menor confiança e menos dinheiro.

Confiança e modelo de negócio

O jornalista disse que a desconfiança em relação à imprensa não começou agora. Quando os jornais tinham posição próxima de um monopólio, as pessoas precisavam comprá-los mesmo quando não gostavam do conteúdo, inclusive para consultar informações como a previsão do tempo ou a programação de filmes. Com o desaparecimento desses conteúdos cotidianos como motivo de compra, restaram sobretudo editoriais e notícias, que podem provocar rejeição.

Como resposta, Baquet defendeu mais humildade e transparência. As redações, afirmou, precisam explicar como trabalham e como obtêm suas histórias. Durante sua gestão, convidou um documentarista para acompanhar a redação por três anos. O público pôde observar, entre outros profissionais, a rotina da jornalista Maggie Haberman na cobertura da Casa Branca.

Ele também disse que o jornalismo deve explicar melhor as razões de suas decisões, inclusive quando elas desagradam aos leitores. Como exemplo, citou a publicação, durante sua passagem pelo Los Angeles Times, de reportagens sobre Arnold Schwarzenegger, então candidato a governador, com relatos de que ele havia maltratado e tocado mulheres sem consentimento.

O crescimento das assinaturas do Times durante o primeiro mandato de Trump, para Baquet, resultou de uma combinação entre o noticiário intenso e a expansão do uso do smartphone e do iPhone. Parte dos leitores procurou o jornal para acompanhar aquele período, mas muitos continuaram assinantes depois que Trump deixou o cargo.

A adaptação ao celular foi, segundo ele, essencial para o crescimento do negócio. O jornal não poderia oferecer as notícias exatamente como fazia na edição impressa. Baquet citou o Wordle como uma versão digital das palavras cruzadas, o Wirecutter como uma adaptação das recomendações de produtos, filmes e música, e o Cooking como uma versão contemporânea de seções tradicionais do jornal.

Vídeos curtos e inteligência artificial

Baquet afirmou que o jornalismo não deve proteger uma única forma de contar histórias. Texto, vídeo curto e vídeo longo, segundo ele, devem ser usados conforme a maneira como o público quer receber as informações. A missão das redações é transmitir as notícias importantes do dia, independentemente da tecnologia empregada.

Ele também defendeu que as redações abracem a inteligência artificial. Comparou a transformação atual ao impacto do telégrafo na cobertura da Guerra Civil americana e disse que a resistência à internet foi um erro que não pode se repetir. Para Baquet, os veículos precisam encontrar formas de usar a IA a favor da missão jornalística.

O conselho aos novos repórteres é aprender a fazer diferentes tipos de trabalho, sem se limitar ao texto ou ao vídeo. “Tudo isso está se misturando”, afirmou. Diante das mudanças, ele recomendou mente aberta e disposição para usar as novas ferramentas.

Texto produzido pela Redação Ponto de Hoje com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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