Uma música ainda não lançada de Bjork terá como inspiração o encontro entre uma mulher e uma barata, episódio central de A Paixão Segundo G.H.. A cantora islandesa se declara fã de Clarice Lispector, autora brasileira que explora essa experiência no livro.
A pesquisadora Ilana Feldman, organizadora de uma obra sobre a adaptação cinematográfica da história, afirma que Bjork escolheu o livro mais radical de Clarice. A avaliação está ligada ao percurso da personagem, marcado pela perda da forma humana, pela desmontagem e pelo questionamento da identidade.
A cantora resumiu o impacto da leitura em sua criação: “Clarice convida a gente a estranhar”. Para Bjork, esse estranhamento envolve o mundo e a própria percepção de quem somos antes de um possível reencontro.
Leituras que chegaram ao pop
A presença de Clarice não se limita à cantora islandesa. Dua Lipa recomendou livros da autora em seu clube do livro. Lorde, da Nova Zelândia, leu obras de Lispector durante a composição de seu álbum mais recente. Olivia Rodrigo encheu de anotações seu exemplar de A Hora da Estrela.
Para Ilana, a barata concentra sentidos que ajudam a explicar a permanência da escritora. O animal pode ser visto como repugnante e, ao mesmo tempo, associado a uma rainha, com olhos e antenas capazes de captar sinais. Na interpretação da pesquisadora, essa imagem aproxima Clarice do passado e do futuro.
A universalidade da autora também estaria na radicalidade de seus questionamentos sobre a existência humana. Ilana destaca que, em 1964, Clarice já colocava em questão o próprio lugar no mundo e a identidade construída na relação com outra pessoa.
A obra reúne ainda elementos ligados à invisibilidade, ao abismo entre classes sociais e ao racismo estrutural. Para Ilana, essa combinação faz com que o livro seja profundamente brasileiro e, ao mesmo tempo, universal.








